Quando se fala em crescimento das franquias no Brasil, é comum associar o avanço do setor à abertura de novas lojas ou ao aumento do faturamento. Mas, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), existe uma mudança mais profunda acontecendo: o consumidor deixou de comprar apenas produtos e serviços e passou a comprar tempo.
A avaliação foi apresentada durante a abertura da ABF Franchising Expo 2026, que reúne centenas de redes em São Paulo. Para Tom Moreira Leite, presidente da entidade, conveniência tornou-se um dos principais fatores de decisão do consumidor moderno e explica boa parte da expansão de segmentos que, até poucos anos atrás, eram considerados nichos.
"Hoje, tempo é uma moeda de valor. O consumidor não avalia apenas quanto custa um produto, mas quanto tempo ele economiza. Negócios que simplificam a rotina das pessoas tendem a ganhar espaço."
Essa lógica ajuda a explicar por que formatos como mercados autônomos, lavanderias, minimercados de condomínio, cafeterias, academias, clínicas de saúde, óticas e serviços financeiros continuam crescendo mesmo em um cenário de juros elevados e consumo mais cauteloso. Segundo a ABF, esses negócios atendem necessidades recorrentes e oferecem proximidade, praticidade e rapidez, características cada vez mais valorizadas pelos consumidores.
Os números reforçam esse movimento. O franchising brasileiro alcançou faturamento de R$ 308,4 bilhões nos últimos 12 meses, reúne 204.908 operações, 3.320 marcas e gera quase 1,8 milhão de empregos diretos, estando presente em aproximadamente 70% dos municípios brasileiros.
Segundo Tom Moreira, mesmo diante de juros altos, inflação e desaceleração econômica, o modelo continua crescendo porque acompanha mudanças estruturais no comportamento do consumidor.
"O consumidor pode adiar a compra de um bem durável, mas continua indo à farmácia, à academia, à cafeteria, à clínica ou ao minimercado. São necessidades recorrentes que fazem parte da rotina."
A própria feira evidencia essa transformação. Entre os destaques da edição de 2026 estão franquias de mercados autônomos, lavanderias inteligentes, vending machines, aluguel de veículos, economia circular, serviços voltados ao envelhecimento da população, clínicas especializadas e soluções para mobilidade urbana, segmentos que têm em comum a promessa de reduzir o tempo gasto nas tarefas do dia a dia.
Outro fator apontado pela entidade é a digitalização das redes. Ferramentas de inteligência artificial, aplicativos próprios, programas de fidelidade, automação e plataformas de relacionamento passaram a integrar a operação das franquias e ajudam pequenas unidades a acessar tecnologias antes restritas às grandes empresas.
O perfil de quem busca empreender por meio de franquias também acompanha essa transformação. Segundo levantamento da ABF Franchising Expo, 61% dos visitantes da feira pretendem investir até R$ 200 mil em uma franquia, indicando que modelos de menor investimento continuam sendo a principal porta de entrada para novos empreendedores.
Na avaliação da entidade, o setor deixou de ser apenas um modelo de expansão empresarial para se tornar parte da infraestrutura de serviços do país. Mais do que vender produtos, as redes disputam um ativo que se tornou escasso na vida moderna: o tempo do consumidor.
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