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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2026

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Setembro Amarelo: sinais de esgotamento que parecem normalidade já acendem alerta para empresas

Alterações no comportamento no trabalho podem sinalizar riscos psicossociais antes do afastamento

Setembro Amarelo: sinais de esgotamento que parecem normalidade já acendem alerta para empresas
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Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e prevenção do suicídio, a discussão sobre saúde mental também ganha espaço no ambiente corporativo. Cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade , sensação de estar sempre atrasado e incapacidade de se desconectar do trabalho costumam ser tratados como parte da rotina profissional. O problema começa quando esses sinais deixam de ser pontuais e passam a fazer parte do dia a dia. Com o avanço das discussões sobre saúde mental e a atualização da NR-1, comportamentos antes normalizados começam a ser observados também como possíveis indicadores de riscos psicossociais relacionados à organização do trabalho.

Segundo o médico do trabalho Dr. Marco Aurélio Bussacarini, especialista em Medicina Ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, o principal desafio das organizações está em reconhecer os sinais antes que o trabalhador chegue ao limite. “O esgotamento raramente começa com um colapso. Antes disso, existem mudanças graduais no comportamento que muitas vezes são normalizadas. Quando cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração passam a ser vistos como parte da rotina, existe um sinal de alerta”, afirma.

Hiperdisponibilidade não é sinônimo de engajamento 

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Um dos principais sinais que merecem atenção é a dificuldade de se desconectar do trabalho. Permanecer disponível fora do expediente, responder mensagens constantemente, acompanhar demandas durante períodos de descanso ou sentir culpa por não estar trabalhando podem indicar que o tempo necessário para recuperação física e mental está sendo comprometido. Outras mudanças também podem surgir de maneira progressiva, como aumento da irritabilidade, perda de iniciativa, dificuldade de concentração, sensação permanente de urgência e maior esforço para realizar tarefas que antes eram executadas com facilidade.

Isso não significa que todo período de pressão ou aumento de demanda representa necessariamente um risco à saúde. A diferença está, sobretudo, na frequência, na intensidade e na possibilidade de recuperação. “Existe uma diferença entre um período de maior demanda e uma rotina permanentemente marcada pela urgência. Quando a exceção se transforma em rotina e não há espaço suficiente para recuperação, é preciso olhar para a forma como o trabalho está organizado”, explica Bussacarini.

O desgaste também pode permanecer invisível porque nem sempre vem acompanhado de uma queda imediata de produtividade. Em algumas situações, o profissional continua cumprindo metas e entregando resultados, mas precisa mobilizar um esforço cada vez maior para manter o mesmo desempenho. A hiperdisponibilidade, nesse contexto, pode ser interpretada como comprometimento ou alto engajamento, enquanto os sinais de esgotamento passam despercebidos.

No contexto do Setembro Amarelo, identificar esses sinais precocemente ganha ainda mais importância, já que a campanha amplia o diálogo sobre saúde mental e pode ajudar as empresas a questionarem a normalização de comportamentos que, quando persistentes, indicam que algo pode não estar funcionando bem.

Para o RH, isso significa observar não apenas o indivíduo, mas também o contexto em que determinados comportamentos aparecem. Sobrecarga persistente, metas incompatíveis com os recursos disponíveis, baixa autonomia, conflitos, comunicação inadequada, jornadas extensas, falta de clareza sobre responsabilidades e ausência de apoio das lideranças podem contribuir para ambientes psicossocialmente desfavoráveis.

NR-1 amplia atenção aos sinais

A atualização da NR-1 reforça a necessidade de identificar e gerenciar fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Na prática, um dos desafios das organizações é diferenciar situações individuais e circunstanciais de problemas que podem estar relacionados à maneira como o trabalho está estruturado, distribuído e gerenciado.

Além da avaliação dos fatores psicossociais, indicadores organizacionais podem funcionar como sinais complementares de alerta. Aumento do absenteísmo, afastamentos, turnover, conflitos interpessoais, erros, retrabalho, acidentes, queixas recorrentes e alterações de produtividade podem ajudar a revelar padrões que merecem investigação.

Um caso isolado pode ter diferentes explicações. Quando os mesmos sinais começam a aparecer repetidamente em uma equipe, setor ou unidade, porém, a análise precisa avançar além das características individuais. “Se diferentes profissionais de uma mesma equipe apresentam os mesmos sinais, é preciso investigar o ambiente e a organização do trabalho, e não apenas responsabilizar individualmente cada trabalhador”, afirma Bussacarini.

Do Setembro Amarelo para uma cultura permanente de prevenção 

Para além das ações pontuais promovidas durante o Setembro Amarelo, o especialista defende que a atenção à saúde mental precisa estar integrada à rotina das organizações. Palestras, campanhas e materiais educativos são importantes para ampliar a conscientização, mas não substituem a análise das condições concretas de trabalho.

A prevenção envolve combinar diferentes fontes de informação, como a escuta dos trabalhadores, a avaliação dos fatores de risco psicossociais, a análise de indicadores organizacionais, a atuação das lideranças e a participação das áreas de Saúde e Segurança do Trabalho. Mais do que identificar trabalhadores em sofrimento, o objetivo é compreender por que determinados sinais estão surgindo e se existem fatores relacionados ao trabalho contribuindo para esse cenário.

“Gerenciar riscos psicossociais significa reconhecer os sinais de alerta, identificar os fatores da organização do trabalho que podem estar contribuindo para o desgaste e agir preventivamente sobre aquilo que pode ser modificado”, conclui Bussacarini.

Nesse contexto, o Setembro Amarelo pode cumprir um papel que vai além da conscientização. Para as empresas, a campanha também pode ser um convite para observar aquilo que, durante o restante do ano, corre o risco de ser confundido com normalidade.

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Jornalista - Kaísa Romagnoli -São Paulo/SP

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Jornalista - Kaísa Romagnoli -São Paulo/SP

Kaísa Romagnoli é jornalista com sólida experiência em comunicação estratégica e produção de conteúdo.

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