Na última semana, teve início a 23ª Copa do Mundo, a primeira realizada em três países, Estados Unidos, Canadá e México, também a primeira com a participação de 48 seleções nacionais. O torneio acontece em meio a tensões e conflitos na política internacional, em um momento marcado pela fragmentação econômica, com o aumento da imposição de barreiras tarifárias e não tarifárias ao comércio internacional por motivos políticos, além de conflitos armados e do acirramento da competição entre as duas principais potências da atualidade, China e Estados Unidos, pela preponderância global. Esta também é a primeira Copa realizada enquanto um dos países-sede está ativamente envolvido em um conflito internacional: os Estados Unidos, em confronto com o Irã.
Eventos esportivos são importantes vitrines para os países e, em diversas ocasiões, foram utilizados como forma de demonstrar atratividade econômica na busca por investimentos e novas parcerias comerciais. Nos anos 2010, uma sequência de grandes eventos esportivos em países emergentes buscou consolidar o espaço dessas nações entre as principais potências mundiais, com capacidade econômica para receber competições de grande porte. As Copas de 2010, 2014 e 2018 foram realizadas em três países do BRICS: África do Sul, Brasil e Rússia, respectivamente. O agrupamento que reúne importantes potências emergentes foi institucionalizado em 2009, mas, desde 2001, esses países já eram reconhecidos pelo mercado em razão de seu potencial de crescimento econômico, o que contribuiu para sua aproximação à margem das reuniões da Assembleia Geral da ONU e das cúpulas do G20. A China, por sua vez, sediou os Jogos Olímpicos de 2008, enquanto a Índia recebeu os Jogos da Commonwealth em 2010, embora ambos os países não possuam tradição de participação em Copas do Mundo.
Eventos esportivos também são utilizados como forma de punição a países envolvidos em conflitos internacionais. A Rússia, por exemplo, teve seus atletas impedidos de competir sob a bandeira nacional em diferentes competições esportivas. A seleção russa também foi excluída das eliminatórias e da própria Copa do Mundo, além de ter seus clubes proibidos de participar de torneios internacionais. Desde a invasão da Ucrânia, o país vem sofrendo sanções econômicas, políticas e esportivas como resposta da comunidade internacional à agressão à soberania territorial do país vizinho.
Um dos países-sede da Copa do Mundo de 2026, os Estados Unidos são o epicentro de importantes tensões e conflitos políticos internacionais. Desde o início do governo Trump, o país anunciou tarifas comerciais para um número significativo de parceiros, envolveu-se em ações militares no Irã e na Venezuela, viu seu presidente manifestar interesse estratégico na Groenlândia, manteve sanções contra Cuba e adotou uma política migratória mais rígida, estabelecendo restrições à entrada de cidadãos de diversos países, tanto para turismo quanto para migração permanente.
Apesar dos esforços da FIFA, especialmente de seu presidente, Gianni Infantino, para evitar que questões políticas dos Estados Unidos afetassem a realização do evento, recorrendo até mesmo à concessão do Prêmio da Paz da FIFA ao presidente americano, o torneio não tem passado ileso às controvérsias que o cercam. As tensões entre Estados Unidos e Irã levaram o governo iraniano a considerar, no início do ano, o não envio de sua seleção para a competição. Os Estados Unidos, por sua vez, determinaram que a delegação iraniana permanecesse em solo americano apenas pelo período necessário para a disputa de suas partidas oficiais, sem autorização para pernoitar no país. Além disso, membros da comissão técnica tiveram o acesso negado ao território americano, e ingressos destinados à federação iraniana foram barrados pelo país organizador. Relatos
semelhantes envolveram seleções como Senegal, Uzbequistão e Iraque, cujos atletas ou integrantes das delegações foram submetidos a revistas consideradas atípicas ou a longos interrogatórios.
A Copa do Mundo e outros eventos esportivos de escopo global atraem a atenção da opinião pública internacional e mobilizam torcedores durante um período em que questões políticas tendem a ocupar um plano secundário. A ampliação do número de seleções participantes trouxe dois estreantes em Copas do Mundo: Cabo Verde e Curaçao, pequenas nações em termos territoriais e populacionais que passaram a compartilhar com o mundo a expectativa e a emoção de disputar o torneio pela primeira vez. Contudo, esses eventos são diretamente afetados pela dinâmica da política internacional, que frequentemente coloca em xeque o espírito de fraternidade e comunhão entre os povos em momentos de tensão geopolítica. As relações entre os Estados ajudam a determinar quem pode participar de um evento, quem é bem-vindo e quem enfrenta restrições. Muitas vezes, rivalidades políticas acabam se refletindo dentro de campo, como ocorre em confrontos entre Brasil e Argentina ou entre França e Inglaterra. Independentemente de quem levantará a taça no dia 19 de julho, a Copa do Mundo de 2026 promete fortes emoções e, dependendo da trajetória de algumas seleções, poderá proporcionar confrontos que refletem, dentro dos gramados, tensões existentes fora deles.
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