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Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

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Haiti ontem e hoje: revolução, ruína, resiliência e esperança nos campos de futebol

Leo Braga, Professor de Relações Internacionais da Faculdade Mackenzie Rio

Haiti ontem e hoje: revolução, ruína, resiliência e esperança nos campos de futebol
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A trajetória histórica do Haiti é marcada por um paradoxo profundo: o heroísmo de sua emancipação pioneira contrasta com séculos de instabilidade e exploração sistêmica. Desde o início da colonização, no final do século XV, a ilha foi submetida a regimes de violência extrema, primeiro sob o domínio espanhol — que dizimou a população nativa — e depois sob o francês, consolidando-se como uma colônia de produção intensiva sustentada pela importação massiva de africanos escravizados.

A Revolução Haitiana, iniciada em 1791 sob a liderança de Toussaint Louverture, na esteira da Revolução Francesa de 1789, estabeleceu o Haiti como a primeira república negra das Américas, um marco histórico sem precedentes. No entanto, o país não encontrou a paz após a independência, em 1804. A nação foi imediatamente tragada por uma crônica disputa de poder, agravada pela traição e pelo assassinato de figuras fundadoras como Dessalines, o que resultou em divisões territoriais entre o norte autoritário e o sul republicano.

Essa instabilidade foi aprofundada por uma dívida exorbitante de 150 milhões de francos imposta pela França em 1825 como condição para o reconhecimento diplomático. Esse pagamento, que consumiu cerca de 20% da receita nacional haitiana durante mais de um século, representou um dreno econômico paralisante que comprometeu o desenvolvimento do país.

O século XX impôs novos desafios com a dinastia Duvalier (1957–1986). Durante esse período, a democracia foi desmontada e o Estado passou a utilizar grupos armados, como a milícia Tonton Macoutes, como instrumento de repressão, tortura e controle. Esse modelo institucionalizou a impunidade e o uso da violência por atores paraestatais. Com a queda dos Duvalier, o país mergulhou em um ciclo de crises sucessivas, potencializado pela dissolução das Forças Armadas, em 1995, que criou um vácuo de autoridade. As Forças Armadas só seriam restauradas em 2017.

O resultado foi a mutação de antigas milícias políticas em organizações criminosas estruturadas sob a égide do “narco-gangsterismo”, que dominam o cenário haitiano até o presente, mantendo a nação em um estado de vulnerabilidade constante. Os últimos anos da política haitiana têm sido particularmente duros, somando-se ao legado do terremoto de 2010 e da difícil operação de paz da ONU, realizada entre 2004 e 2017. O presidente Jovenel Moïse, cujo mandato começou em 2017, foi assassinado em 2021. Isso marcou o colapso definitivo da autoridade central. Atualmente, mais de 200 gangues operam no país, financiadas pelo tráfico de armas, drogas e extorsão (sequestros e pedágios), além da exploração de mulheres.

As gangues também alternaram momentos de confronto e cooperação, formando rivalidades e coalizões conforme seus interesses. Nesse contexto, a G9 e a Gpèp uniram-se para formar a Viv Ansanm (Viver Juntos), liderada por Jimmy “Barbecue” Chérizier, que se consolidou como um poder paralelo, exercendo controle sobre infraestruturas estratégicas e ditando a vida cotidiana nas periferias de Porto Príncipe. A Viv Ansanm conta com aproximadamente 30 mil homens, enquanto as Forças Armadas, restauradas na época de Jovenel Moïse, não somam quatro mil integrantes.
 

Ao assassinato de Moïse seguiu-se a ascensão de Ariel Henry como primeiro-ministro interino, mas não por muito tempo. Ao retornar de uma viagem a Nairóbi, onde buscava constituir um efetivo policial para apoiar a estabilização da ordem no Haiti, foi forçado a renunciar após a Viv Ansanm promover uma grande ofensiva na capital, Porto Príncipe, fechando estradas e o aeroporto e libertando cerca de quatro mil presos.

Diante desse cenário, o país vive um processo de transição tenso. Após a renúncia de Ariel Henry, em 2024, um Conselho Presidencial de Transição foi formado, com Didier Fils-Aimé assumindo o cargo de primeiro-ministro. O calendário eleitoral previa o primeiro turno para agosto de 2026, embora a insegurança já tenha causado suspensões, evidenciando o desafio que as gangues impõem ao processo democrático. Enquanto 282 partidos estão habilitados e a Viv Ansanm exige cargos ministeriais para seus aliados políticos e anistia para si própria, pairam sobre o futuro político da nação a incerteza e a insegurança.

Em meio à crise humanitária e política, o futebol surge como um raro ponto de orgulho nacional. Talvez o único. A classificação da Les Grenadiers — como é chamada a seleção do Haiti em homenagem aos combatentes vitoriosos sobre as forças armadas de Napoleão, em 1804 — para a Copa do Mundo de 2026, um feito notável alcançado após um hiato de 52 anos, marca um momento de renovação para o futebol do país. À frente dessa jornada está o treinador francês Sébastien Migné, contratado pela comissão diretiva da Federação Haitiana de Futebol (FHF) no início de 2024.

Nascido em 30 de novembro de 1972, em La Roche-sur-Yon, na França, Migné construiu uma trajetória resiliente, iniciada em uma longa jornada como jogador de ligas menores. Sua transição de jogador para treinador começou no início dos anos 2000, por meio da relação profissional de quase uma década com o histórico treinador Claude Le Roy. Durante esse período, Migné integrou as comissões técnicas de seleções como Omã, República Democrática do Congo, Congo e Togo, além de atuar como auxiliar técnico do ex-craque e Bola de Ouro Jean-Pierre Papin no Estrasburgo (2006–2007) e no RC Lens (2007–2008).

A experiência de Migné é marcada por sua adaptação a ambientes desportivos complexos, caracterizados por alta cobrança emocional e condições operacionais precárias, especialmente no continente africano. Em sua carreira como treinador principal e auxiliar, destacou-se por feitos significativos, como classificar a seleção sub-20 da República Democrática do Congo pela primeira vez para os campeonatos continentais africanos. Comandou as seleções do Congo (2017–2018) e da Guiné Equatorial (2019–2020).

À frente da seleção do Quênia (2018–2019), conquistou uma indicação ao prêmio de Equipe Masculina do Ano da Confederação Africana de Futebol (CAF). Integrou a comissão técnica de Camarões como auxiliar de Rigobert Song durante a Copa do Mundo do Catar. Em 2024, ao assumir o comando da seleção do Haiti, Migné trouxe essa bagagem de superação para liderar a equipe no desafio de retornar ao maior palco do futebol mundial.

A gestão da equipe reflete a complexidade do momento atual. O treinador francês Sébastien Migné, contratado em 2024, conduz a preparação de forma remota e, quando presencialmente, em bases externas, especialmente em Curaçao, a 800 km do Haiti. Não há como garantir a segurança física das delegações. O próprio estádio nacional Sylvio Cator foi destruído por criminosos em 2024, forçando a equipe a buscar apoio logístico no exterior.

A estrutura da comissão técnica é mista, composta por quatro franceses e três haitianos, enquanto a convocação é formada majoritariamente por atletas que atuam na Europa e na América do Norte e, em geral, em equipes de menor expressão nas grandes ligas de futebol. Dos 26 convocados, 15 jogam nas ligas mais tradicionais (inglesa, francesa, alemã e portuguesa) e apenas um atua em um clube haitiano.

Mas o sucesso da seleção haitiana não está apenas nas mãos de Migné. É bem verdade que a adoção de um esquema tático mais agressivo, com a subida dos laterais para apoiar o ataque e um meio-campo mais povoado para evitar contra-ataques rápidos, tem dado resultado. O saldo é positivo para Migné: nas eliminatórias, venceu 55% das partidas, empatou 12% e perdeu 33%.

Contudo, é necessário destacar o trabalho fora das quatro linhas, fruto de uma “diplomacia esportiva” articulada por duas figuras principais. Aliás, duas mulheres. Que isso seja dito. Monique André é a presidente interina da Federação Haitiana de Futebol (FHF). Anaïse Manuel é embaixadora extraordinária do Haiti no Reino Unido. Juntas, operaram uma rede de diálogo com jogadores haitianos ou descendentes diretos que poderiam escolher defender outras seleções.

O esforço diplomático de bastidores provocou grande adesão desses atletas à proposta de representar o país e buscar uma vaga na Copa do Mundo da Fifa. Sem grandes recompensas financeiras, o que garantiu a participação desses jogadores foi uma combinação entre a legítima perspectiva de valorização de seus passes, proporcionada pela exposição em uma Copa do Mundo, e, sem dúvida, a noção de amor à pátria.

Afinal, talvez o que realmente importe seja compreender o que a Les Grenadiers representa hoje: mais do que uma equipe de futebol, a resiliência de um povo que busca, no esporte, uma forma de visibilidade e superação diante do caos que atravessa o cotidiano de sua pátria.

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Isabel Rizzo

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