Agita Brasil - Portal de Notícias

Quarta-feira, 28 de Outubro de 2026

NOTÍCIAS Agronegócio

O que falta para a soja responsável deixar de ser exceção?

Por Marina Muscolo, diretora-executiva da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS)

O que falta para a soja responsável deixar de ser exceção?
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

A produção da soja avançou significativamente nas últimas décadas. Desenvolveu tecnologias que elevaram a produtividade, aprimorou mecanismos de monitoramento ambiental e criou padrões de certificação capazes de verificar práticas responsáveis de produção. Ainda assim, permanece uma questão importante: por que essas iniciativas não alcançaram uma parcela maior da produção mundial?

Durante a Conferência Internacional da RTRS de 2026, o especialista em inovação e pensamento sistêmico Mark Stevenson apresentou um dado que dimensiona esse desafio: a soja certificada, segundo o Padrão RTRS, representa aproximadamente 1,9% da produção global. Embora existam outras iniciativas de sustentabilidade, o percentual evidencia que ainda temos um longo caminho para ampliar a adoção dessas práticas.

Os resultados recentes mostram avanços importantes. Em 2025, a RTRS alcançou o recorde de 11,2 milhões de toneladas de soja certificada, crescimento de 80% em relação a 2024. No mesmo período, o consumo de material certificado atingiu 8,1 milhões de toneladas, alta de 8,1%.

Leia Também:

Essa evolução demonstra o potencial de expansão da produção responsável, mas também evidencia a necessidade de fortalecer o reconhecimento dessas práticas pelo mercado. Para que a certificação ganhe escala, precisamos construir condições para que o crescimento da oferta seja acompanhado por oportunidades comerciais e compromissos concretos de compra.

Um dos principais obstáculos está na distribuição dos custos e benefícios da sustentabilidade ao longo da cadeia. A adoção de padrões de certificação exige investimentos em adequações, documentação, auditorias e gestão das propriedades. Esses esforços precisam gerar benefícios concretos para os produtores, enquanto compradores e indústrias precisam remunerar estes esforços e auxiliar em mecanismos de previsibilidade para todos os esforços futuros de manter a certificação através dos produtores

A inclusão dos pequenos produtores é fundamental nesse processo. Atualmente, mais de 90% dos produtores certificados RTRS são pequenos produtores, somando mais de 84 mil agricultores, principalmente na Índia e em Uganda. Experiências como a certificação em grupo demonstram que é possível ampliar o acesso, mas ainda precisamos reduzir barreiras e adaptar os mecanismos às diferentes realidades produtivas.

Ao mesmo tempo, as transformações do comércio internacional tornam essa discussão ainda mais relevante. Regulamentações como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) ampliam as exigências de rastreabilidade e comprovação da origem das mercadorias. Tecnologias como imagens de satélite, bases geoespaciais e sistemas digitais contribuem para acompanhar mudanças no uso da terra e identificar riscos.

Entretanto, cumprir exigências regulatórias não significa, necessariamente, construir uma cadeia plenamente sustentável. Precisamos garantir que essas ferramentas estejam associadas a critérios confiáveis, processos de verificação e decisões capazes de produzir resultados ambientais, sociais e econômicos concretos. Nesse contexto, a certificação tem um papel importante ao fornecer uma estrutura reconhecida internacionalmente para verificar práticas de produção responsável, promover transparência e gerar confiança entre os diferentes elos da cadeia de suprimentos.

A experiência acumulada nessas duas décadas da RTRS reforça uma convicção: sustentabilidade e competitividade não devem ser tratadas como objetivos opostos. A conservação dos recursos naturais está diretamente relacionada à continuidade da produção agrícola e à resiliência dos negócios.

Também aprendemos que nenhuma organização, empresa ou segmento da cadeia conseguirá responder sozinho aos desafios que temos pela frente. Por isso, precisamos ir além da criação de padrões e fortalecer o diálogo entre produtores, empresas, instituições financeiras, varejistas e sociedade civil, através dos fóruns da RTRS, buscando uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades.

Somente com uma visão compartilhada e compromissos concretos entre os diferentes atores será possível ampliar a produção responsável e transformar iniciativas isoladas em uma mudança sistêmica e duradoura para todo o setor.Os números mostram que estamos avançando, mas o próximo passo exige transformar esse crescimento em uma mudança estrutural. A pergunta que deve orientar os próximos anos não é apenas quanto a soja certificada pode crescer, mas o que precisamos mudar para que produzir de forma responsável deixe de ser um diferencial de mercado e se torne uma prática cada vez mais acessível, economicamente viável e consolidada na cadeia global da soja.

Sobre a RTRS

Fundada em 2006 em Zurique, na Suíça, a Mesa Global da Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês) é uma associação internacional sem fins lucrativos que estabelece padrões competitivos e confiáveis e desenvolve soluções para promover a produção, o comércio e o uso de soja sustentável.

Como uma mesa redonda global multissetorial, a RTRS atua por meio da cooperação entre os diversos atores da cadeia de valor da soja — da produção ao consumo — oferecendo uma plataforma global de diálogo multilateral sobre soja responsável.

Como provedora de soluções, a RTRS desenvolve padrões de certificação para a produção de soja e para a cadeia de custódia, além de ferramentas como a Plataforma Online — que permite o rastreamento e o registro das certificações RTRS, dos volumes de produção e do material certificado — e a Calculadora de Pegada de Soja e Milho, entre outras ferramentas.

Mais informações: https://responsiblesoy.org/

Comentários:
Attuale Comunicação

Publicado por:

Attuale Comunicação

Saiba Mais

Veja também

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )

(Responsabilidade pelo conteúdo) As ideias e opiniões expressas em cada matéria publicada são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do editor. Cada jornalista é responsável juridicamente por suas matérias assinadas. O Editor se responsabiliza apenas pelas matérias assinadas por ele. - AGITA BRASIL.