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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2026

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Os BRICS em Nova Délhi: em busca de maior influência global em um cenário de conflito internacional

Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

Os BRICS em Nova Délhi: em busca de maior influência global em um cenário  de conflito internacional
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Nos dias 12 e 13 de setembro, aconteceu em Nova Délhi, na Índia, a 18ª Cúpula dos BRICS. O tema escolhido pela presidência indiana do grupo foi: "Construindo Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade". A Cúpula acontece em meio a persistência de conflitos importantes envolvendo membros do grupo como a Rússia e o Irã. Os BRICS surgiram como um espaço de articulação e cooperação de países emergentes frente aos desafios de uma ordem internacional dominada pelas potências ocidentais, com o objetivo de promover os interesses dos países emergentes de forma articulada, buscando avançar iniciativas de cooperação que fortaleçam o papel dos BRICS no cenário global. A reunião contou com a presença de Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi, o anfitrião do evento.


O presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, não esteve presente, mas a delegação brasileira estava presente, liderada pelo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O comunicado final, a Declaração de Nova Délhi, foi aprovada por unanimidade pelos países membros trazendo importantes diretrizes para a cooperação econômica, em inovação, transição energética e para ampliação da representatividade dos países BRICS, representando o Sul Global, na ordem internacional. Além disso, apesar de não citar explicitamente os conflitos vigentes que envolvem membros do agrupamento, a declaração clamou por maior contenção frente aos conflitos regionais, condenou a aplicação de sanções unilaterais e os ataques realizados a infraestruturas civis, buscando manter o consenso entre os membros do bloco. O alcance de uma declaração já foi considerado uma vitória, diante do ano complexo de negociações no âmbito do grupo.


Um outro ponto importante positivo da cúpula dos BRICS foi a reunião entre o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, que conversaram sobre o conflito iraniano. Os Emirados Árabes, do qual Abu Dhabi é parte, têm sofrido ataques do Irã contra bases americanas nesses reinos, em retaliação aos ataques dos EUA. A resolução dos BRICS pediu a contenção da escala das agressões no Oriente Médio, mas não atribuiu responsabilidade do conflito a nenhum ator. Contudo, o comunicado condenou de forma expressa a continuidade das agressões em Gaza. Não houve menção sobre a Ucrânia no documento.

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Os primeiros parágrafos da Declaração foram dedicados a um tema central dos BRICS desde sua criação, em torno do qual há maior consenso entre os estados membros: a reforma das organizações da ordem internacional vigente. A Declaração demanda a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com a manutenção da Rússia e da China, mas com a inclusão de potências como a Índia e o Brasil. Também demanda a reforma das cotas do FMI e do Banco Mundial que determinam a contribuição financeira desses países a essas instituições, mas que também determinam o poder de voto dos países no âmbito dessas instituições. Nas cotas vigentes, os 5 países BRICS originais (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) somados possuem cerca de 10% das cotas. Os Estados Unidos possuem poder virtual de veto, com uma cota de cerca de 16%, uma vez que sua cota de votação permite o bloqueio de decisões que exigem um percentual de maioria qualificada de 85% dos votos. Além disso, os BRICS demandaram a recomposição do Órgão de Apelação da OMC, paralisado desde 2019 pela não aceitação da indicação de novos juízes para compor o quadro do órgão pelos Estados Unidos. A paralisação remove dos países uma importante instância de contestação de políticas comerciais impostas de forma arbitrária e à revelia das normas e regras da organização. Em tempos de imposição de tarifas comerciais elevadas de forma arbitrária pelos Estados Unidos, o Órgão seria um importante mecanismo dos países terem sua contestação dessas tarifas legitimadas pelo principal órgão responsável por decidir sobre conflitos comerciais entre os estados membros da organização.


O tema da desdolarização, que é um importante pauta dos BRICS, teve pouca ênfase nessa Cúpula e o Grupo de Trabalho sobre Pagamentos nos BRICS não apresentou nenhum grande avanço ou alternativa ao dólar. Cabe ressaltar que o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou com tarifas de 100% os países que adotassem de forma explícita mecanismos de substituição do dólar e utilizassem mecanismos alternativos de pagamentos. Em um cenário de crescentes tensões com os Estados Unidos, a escolha por não dar ênfase a esse tema aponta para a falta de disposição de entrar em rotas de conflito diretas com a potência norte-americana. Contudo, os BRICS reafirmaram seu compromisso de continuar promovendo o desenvolvimento de mecanismos de pagamentos que contribuam para a redução de dependência ao dólar americano, contribuindo para o aumento da resiliência econômica desses países.


No último dia, o governo chinês apresentou uma iniciativa em que a China proporá um modelo de linguagem artificial aberta para ser usado por todos os países membros do grupo, promovendo cursos de treinamento sobre os modelos de linguagem. Na corrida tecnológica pela Inteligência Artificial, a China é um dos principais atores, e disseminar seus modelos e linguagens de IA contribuem para que sua tecnologia seja amplamente utilizada em escala global, alimentando a melhora progressiva dessas tecnologias e contribuindo para que a China ocupe a liderança dessa corrida tecnológica.

 

Em 2026, os BRICS completam 20 anos de arranjo entre países emergentes que buscam coordenar suas políticas e cooperar para uma ordem internacional mais democrática em que esses países tenha mais poder de influência. O acrônimo do grupo surgiu em um relatório da Goldman Sachs que apontava esses países como importantes atores da economia internacional que não poderiam mais ser ignorados para a manutenção
da estabilidade na economia global. Desde as primeiras reuniões às margens da Cúpula do G20 motivadas, os BRICS já passaram por importantes transformações como a institucionalização da Cúpula anual dos BRICS desde 2009, a inclusão da África do Sul em 2010, a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Acordo Contingente de Reservas em 2014, e até mesmo a inclusão de 10 novos membros na Cúpula do Rio de Janeiro.


Nesses 20 anos, os BRICS se consolidaram e se institucionalizaram como um espaço de cooperação e de representação dos interesses do sul global. Hoje a cooperação no âmbito do grupo mantém vivas as preocupações originais que deram início ao grupo, como a reforma da ordem multilateral internacional e a redução da dependência do dólar, mas evoluiu para incluir temas de saúde, meio ambiente, tecnologia e exploração espacial. Contudo, desafios presentes desde o surgimento do agrupamento permanecem, como as disparidades econômicas e sociais entre esses países, as diferenças de contextos geopolítico regionais que criam maiores preocupação de segurança para alguns e os diferentes modelos políticos que variam de autocracias religiosas a democracias liberais. O contexto de competição geopolítica internacional torna mais complexa a cooperação no âmbito dos BRICS e a realização efetiva dos interesses de expansão da influência desses países no âmbito internacional.

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Isabel Rizzo

Publicado por:

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