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Sabado, 20 de Junho de 2026

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O Currículo perdeu a validade

Tempo útil das habilidades profissionais deve encolher de 10 anos para, no máximo, 5 anos

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O tempo em que uma competência se mantém relevante, antes superior a uma década, deve cair para algo entre dois e cinco anos, segundo o Gartner. Movimento também reorganiza o ensino: universidades chinesas extinguiram 12,2 mil cursos entre 2021 e 2025. A cientista comportamental Gaya Machado aponta as habilidades que seguem relevantes e como se preparar para esse futuro em rápida transformação


Em 2025, a Universidade de Comunicação da China, uma das mais respeitadas do país em mídia, encerrou a graduação em fotografia. O curso deixou de existir como formação independente e foi absorvido por uma área mais ampla, sob o argumento de que, com câmeras de celular e inteligência artificial ao alcance de qualquer pessoa, a especialização isolada perdeu sentido. A decisão integra um movimento maior: entre 2021 e 2025, as universidades chinesas extinguiram ou suspenderam cerca de 12,2 mil cursos de graduação e criaram outros 10,2 mil, mais próximos do que o mercado passou a exigir.

O movimento nas formações profissionais chinesas é algo que o mercado de trabalho sinaliza com cada vez mais velocidade: o tempo de relevância de uma competência encurtou. A meia-vida de uma habilidade — o intervalo até que ela perca metade do valor — deve cair de mais de uma década para algo entre dois e cinco anos, segundo o Gartner, consultoria global de pesquisa em tecnologia e gestão. O Fórum Econômico Mundial, no Future of Jobs Report de janeiro de 2025, projeta que 39% das habilidades exigidas hoje serão transformadas ou ficarão obsoletas até 2030. Nesse ritmo, o currículo estático se torna apenas o registro de habilidades que o mercado pode já ter deixado para trás.

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Diante desse cenário, a orientação que predomina é reaprender de forma contínua, e isso é mesmo essencial; mas, para a cientista comportamental Gaya Machado, é preciso acrescentar mais camadas a esse contexto: para quem usa a inteligência artificial de forma intensa, reaprender depende do mesmo esforço mental que a ferramenta passou a poupar, e esse esforço definha quando o profissional entrega à máquina o raciocínio que antecede a tarefa. "A habilidade que mais se recomenda é a abertura para reaprender. O que se discute menos é que ela exige uma musculatura cognitiva que o uso automático da inteligência artificial enfraquece justamente em quem mais se apoia nela", afirma.

Pesquisadores da Microsoft e da Universidade Carnegie Mellon descreveram, em estudo de 2025 com profissionais do conhecimento, uma queda no engajamento crítico à medida que a confiança na ferramenta cresce: quanto mais a pessoa recorre à IA em tarefas rotineiras, menos exercita o próprio julgamento. É esse julgamento que Gaya Machado coloca no centro das capacidades prioritárias. A principal é a leitura de contexto — decidir, com estratégia, quais problemas merecem ser resolvidos, mesmo quando a IA daria conta da execução. A ela, a cientista comportamental soma duas disposições de quem aprende: a curiosidade de investigar antes de aceitar a primeira resposta pronta e a resiliência para recomeçar uma curva de aprendizado mais de uma vez na carreira. Todas dependem do esforço mental que o uso automático da IA tende a dispensar.

Esse risco de atrofia, porém, pressupõe a disponibilidade de usar a inteligência artificial, e no Brasil este acesso está muito longe de ser universal. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, estima que 50 milhões de brasileiros já usam IA generativa, com adoção de 69% na classe A e 16% nas classes D e E, e de 59% entre quem tem ensino superior contra 17% entre quem tem ensino fundamental. Para Gaya, o encurtamento das competências cria duas situações opostas, separadas pelo acesso à tecnologia. De um lado, quem usa a IA com frequência pode terceirizar o raciocínio e enfraquecer a própria capacidade de reaprender. De outro, quem não tem a ferramenta vê as próprias competências perderem valor na mesma velocidade, com ainda menos alternativas. "A conversa sobre atrofia cognitiva parte de quem já tem a tecnologia na mão. Para a maioria dos trabalhadores brasileiros, a pressão por se atualizar chega antes do acesso, e a desigualdade decide quem terá a chance de desenvolver a capacidade que amplia as oportunidades profissionais", explica.

No mercado, a urgência já aparece nos números. Oito em cada dez empregadores no Brasil relatam dificuldade para encontrar as competências de que precisam, índice de 80% em 2026, acima da média global, segundo a ManpowerGroup, enquanto a indústria projeta requalificar 11,8 milhões de trabalhadores até 2027, conforme a Confederação Nacional da Indústria.

Requalificar, porém, esbarra em duas barreiras menos visíveis. A primeira é cognitiva: repor uma habilidade resolve pouco se a pessoa deixou de exercitar o raciocínio por trás dela. A segunda é de acesso: boa parte dos trabalhadores ainda luta para usar a ferramenta que move essa transformação. Gaya Machado conclui: "Quando uma competência perde valor cada vez mais rápido, a habilidade mais resistente é pensar por conta própria. É ela que nenhum currículo mostra, e é ela que decide o valor de todas as outras. O problema é que, hoje, nem todos têm a mesma chance de desenvolvê-la."

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Jornalista - Kaísa Romagnoli -São Paulo/SP

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Jornalista - Kaísa Romagnoli -São Paulo/SP

Kaísa Romagnoli é jornalista com sólida experiência em comunicação estratégica e produção de conteúdo.

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