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Quinta-feira, 07 de Maio de 2026

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Quem sofre mais quando o amor termina pela morte? O que a ciência revela e o que ainda evitamos encarar

Por Marcelo Santoro Almeida, professor de Direito de Família da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

Quem sofre mais quando o amor termina pela morte? O que a ciência  revela e o que ainda evitamos encarar
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Há temas que o Direito encontra todos os dias, mas que a sociedade prefere tratar em silêncio. A morte de um dos cônjuges é um deles. Costumamos falar do luto como uma experiência universal, quase homogênea, como se todos percorressem o mesmo caminho emocional. A ciência, porém, começa a desmontar essa narrativa. Pesquisas robustas conduzidas nos Estados Unidos, no Japão e em outros países vêm demonstrando que homens e mulheres não apenas vivenciam a perda de forma distinta, como também sofrem impactos profundamente diferentes na saúde, na expectativa de vida e na própria capacidade de reorganizar a existência. O amor, ao que parece, deixa marcas desiguais quando parte.


Um dos conceitos mais estudados na área da saúde pública é o chamado “widowhood effect”, ou “efeito da viuvez”. Trata-se de um fenômeno estatisticamente comprovado: a perda do cônjuge aumenta o risco de morte de quem fica. Um estudo clássico publicado no Journal of Public Health mostrou que, nos primeiros três meses após a perda, o risco de morte pode aumentar entre 30% e 90%, dependendo da faixa etária e do contexto social. Mas o dado que chama mais atenção — e que raramente aparece nas conversas de bar — é outro: esse aumento é significativamente maior entre homens do que entre mulheres. Em alguns recortes, homens viúvos chegam a apresentar um risco de mortalidade até duas vezes superior ao de mulheres na mesma condição.


No Japão, país conhecido por sua tradição metodológica em estudos populacionais, o Japan Collaborative Cohort Study, que acompanhou dezenas de milhares de pessoas ao longo de anos, chegou a uma conclusão direta e desconfortável: a viuvez está associada ao aumento de mortalidade em homens, mas não apresenta o mesmo impacto entre mulheres. Em outras palavras, perder o cônjuge pode ser, do ponto de vista estatístico, mais letal para eles do que para elas. Estudos mais recentes, publicados em bases como a ScienceDirect, reforçam essa diferença ao apontar que homens viúvos têm maior incidência de depressão, declínio cognitivo e até demência, enquanto mulheres demonstram maior capacidade de adaptação ao novo cenário de vida.

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Nos Estados Unidos, análises conduzidas com base em grandes bancos de dados longitudinais, como o Health and Retirement Study (HRS), vêm reiterando esse padrão. Um levantamento recente coordenado por pesquisadores da Boston University indicou que homens viúvos apresentam aumento significativo no risco de mortalidade e piora acentuada no bem-estar psicológico, ao passo que mulheres, embora também afetadas pela perda, não registram aumento proporcional nos níveis de depressão e, em alguns casos, relatam até melhora na satisfação com a vida ao longo do tempo. Sim, você leu corretamente: em determinados contextos, a viuvez não apenas não destrói, como pode abrir espaço para
uma reorganização emocional mais estável entre mulheres.


A pergunta que naturalmente surge é: por quê? A resposta não está em uma suposta “força feminina” mística, nem em uma fragilidade masculina caricata. Está, antes, na forma como construímos socialmente o casamento. Diversos estudos em psicologia social apontam que homens tendem a concentrar na relação conjugal a maior parte de seu suporte emocional, enquanto mulheres, historicamente, mantêm redes sociais mais amplas e diversificadas — amigas, familiares, vínculos comunitários. Quando o casamento termina pela morte, muitos homens perdem não apenas a companheira, mas também sua principal (às vezes única) fonte de escuta, organização cotidiana e afeto estruturante. Já as mulheres, embora sofram profundamente, costumam ter onde se apoiar. É uma diferença silenciosa, mas brutal.

 

Há também um componente prático que não pode ser ignorado, e aqui o humor ajuda a digerir a dureza dos dados. Em muitos casamentos, especialmente nas gerações mais tradicionais, a mulher não apenas ama: ela organiza, agenda, cuida, lembra, sustenta a logística invisível da vida doméstica. Quando ela parte, alguns homens descobrem, da forma mais abrupta possível, que o amor também incluía saber onde está o documento do plano de saúde, como funciona o pagamento das contas e até qual é o horário da consulta médica. Pode parecer anedótico, mas a literatura científica mostra que essa desorganização súbita contribui para o aumento de doenças, negligência com a saúde e, em última análise, maior mortalidade.


Do ponto de vista jurídico, esse fenômeno ainda é pouco explorado. O Direito das Famílias lida com a morte de forma essencialmente patrimonial: inventário, partilha, transmissão de bens. Mas a ciência sugere que há algo mais, algo que escapa às planilhas e às escrituras. A vulnerabilidade emocional e física do cônjuge sobrevivente, especialmente quando homem, é um dado real, mensurável e relevante, que poderia — e talvez devesse — influenciar políticas públicas, estratégias de assistência e até a forma como pensamos a proteção familiar no pós-ruptura involuntária.


No fim das contas, a grande provocação que esses estudos nos deixam é desconfortável, mas necessária: o casamento não significa a mesma coisa para homens e mulheres e, por isso, sua ausência também não produz os mesmos efeitos. Se, durante a vida, muitos homens parecem mais “independentes”, a ciência sugere que essa independência pode ser, em parte, uma ilusão sustentada pela presença silenciosa da parceira. Quando ela se vai, o que sobra não é apenas saudade, é um vazio estrutural.


Talvez seja hora de começarmos a falar disso com mais honestidade. Não para competir sobre quem sofre mais, afinal o luto não é um campeonato. Mas para compreender que as relações que construímos moldam profundamente nossa forma de existir no mundo. E, ao que tudo indica, quando o amor termina pela morte, ele não deixa apenas lembranças. Deixa também estatísticas. E elas contam uma história que ainda estamos aprendendo a ouvir.

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Isabel Rizzo

Publicado por:

Isabel Rizzo

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