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Quarta-feira, 02 de Setembro de 2026

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A nova ofensiva econômica dos EUA contra o Irã

Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

A nova ofensiva econômica dos EUA contra o Irã
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No dia 24 de agosto, os Estados Unidos anunciaram uma nova ofensiva contra o Irã diante do não alcance de um acordo com o país para pôr fim ao fechamento do Estreito de Ormuz e o fim do programa nuclear iraniano. As novas sanções foram anunciadas pelo Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent. As medidas foram chamadas de Operação Marginalizado Econômica (Operation Economic Outcast) e seu objetivo é sufocar economicamente o Irã para que o país aceite os termos para um acordo proposto pelos EUA. O objetivo também envolve a possível queda do regime iraniano. Washington parece buscar resolver pelo endurecimento de sanções econômica o que a pressão militar sobre o Irã não foi capaz de realizar desde os primeiros ataques em 2025.


O Irã respondeu que não cederá à pressão americana. O Ministro da Economia do país, Ali Madanizadeh, afirmou que o Irã possui mecanismos para contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos evitando o colapso da economia nacional. O governo iraniano também ameaçou retaliar contra todos os países que participarem das sanções anunciadas pelos EUA. O Irã já sofre sanções econômicas de forma intermitente desde 1979, depois da Revolução Iraniana e desde 2018, no primeiro governo Trump, o país se tornou alvo de sanções econômicas mais duras por conta do seu programa nuclear.

As novas medidas incluem sanções contra cinco novos setores como ativos digitais (criptomoedas), tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. As sanções também incluem cerca de 60 alvos específicos como indivíduos, entidades e navios em países como China, Emirados Árabes Unidos, Suíça e Cingapura. Além dessas medidas, os Estados Unidos ameaçaram cortar do sistema dólar qualquer país ou instituição financeira que permaneça fazendo transações com o Irã, facilitando transações financeiras do Irã, lavando dinheiro iraniano ou comprando/vendendo para o país. Também incluiu a suspensão de licenças de envio de recursos dos EUA para o Irã e que ainda permitiam acesso ao sistema educacional e cultural americano.

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O objetivo é coibir parceiros que os EUA identificam como atores que contribuem para o desenvolvimento do programa de mísseis e para o programa nuclear iraniano, países e atores que continuam comprando petróleo do país, restringir a atuação de uma “frota fantasma” composta por navios que transportam de forma clandestina o petróleo do Irã para países que continuam comprando o petróleo iraniano. O governo americano afirma que existem redes complexas de empresas e atores que contribuem para o programa nuclear iraniano e para o desenvolvimento de mísseis exportando tecnologias de uso dual (civil e militar) e que continuam fornecendo recursos e tecnologia para o país apesar das sanções impostas, escapando os controles de exportação existentes. Por hora, instituições chinesas apontadas como facilitadoras de transações com o Irã não foram incluídas na lista de sanções.


O controle dos Estados Unidos sobre o sistema financeiro internacional centrado na hegemonia do dólar, confere ao país influência desproporcional não apenas sobre as transações internacionais mas sobre a infraestrutura do sistema financeiro internacional, como as principais organizações, sistemas de pagamento e de crédito, permitindo que sanções econômicas aplicadas sobre o Irã sejam utilizadas como uma arma de coerção, a Bomba Dólar. Essa “arma” só está disponível ao governo americano por conta da centralidade da sua moeda e do seu mercado na economia global. Essa preponderância financeira e o controle sobre o mercado de capitais global contribuíram para manter a dominância americana global, reduzindo os custos de manutenção da ordem liberal internacional patrocinada pela liderança hegemônica.

Contudo, esse poder estrutural sobre o sistema financeiro internacional tem sido contestado, sobretudo pelos países emergentes desde a crise financeira de 2008-09 e das primeiras levas de imposição de sanções econômicas sobre o Irã e sobre a Rússia em 2012 e 2014, respectivamente. Ao aplicar essas sanções, os EUA mostram o tamanho da sua preponderância econômica, mas expõem as vulnerabilidades de outros países em relação à potência hegemônica. Não à toa, desde então, há um esforço progressivo e sistemático por parte de diversos países do Sul Global, mas também de países desenvolvidos na Europa, de reduzir sua dependência e sua vulnerabilidade em relação ao dólar americano. Esse esforço de desdolarização tem resultado na redução progressiva e gradual das reservas oficiais internacionais denominadas na moeda americana, no esforço de utilização de outras moedas nacionais para transações bilaterais de comércio entre países que não envolvam os EUA (com destaque para a internacionalização da moeda Chinesa, o Renminbi).

A tentativa de reduzir a dependência da dólar e do sistema financeiro centrado nos EUA também levou a criação de mecanismos de transações transfronteiriços independentes do SWIFT (que não é americano mas está sujeito à influência dos EUA, cumprindo as determinações do governo americano de suspensão de países sancionados como o Irã e as Rússia), como o CIPS chinês e o SPFS russo, o fortalecimento de bandeiras de crédito nacionais em detrimento de empresas como Visa e Mastercard e até mesmo projetos de moedas digitais emitidas por bancos centrais nacionais que poderiam reduzir os custos de transações transfronteiriças e facilitar a realização de transações entre parceiros econômicos sem precisar recorrer ao dólar americano.

As sanções impostas sobre o Irã, podem ter os efeitos esperados no curto prazo. Contudo, o Irã possui uma rede de parceiros que continuam fazendo comércio com o país buscando assegurar acesso a recursos estratégicos como o petróleo e que utilizam mecanismos financeiros próprios, como a China e a Rússia. O uso cada vez mais coercitivo do dólar e da influência americana sobre o sistema financeiro internacional acompanhado de uma postura cada vez mais errática dos Estados Unidos em relação a seus parceiros e aliados, aumenta a desconfiança em torno do país e contribui para a continuidade do esforço de dolarização e de construção de uma infraestrutura financeira que seja centrada no dólar, no médio e longo prazo. Além disso, a continuidade do endurecimento das sanções econômicas sobre o Irã pode contribuir para acirrar as tensões entre China e Estados Unidos, caso o governo americano opte por confrontar o apoio chinês ao Irã de forma direta.

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Isabel Rizzo

Publicado por:

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