Agita Brasil - Portal de Notícias

Quarta-feira, 02 de Setembro de 2026

NOTÍCIAS Mundo

O acirramento das tensões comerciais entre EUA e Canadá

Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

O acirramento das tensões comerciais entre EUA e Canadá
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

No dia 21 de agosto, entrou em vigor tarifas de 50% sobre produtos do Canadá após o não alcance de um acordo comercial entre os dois países. As tarifas serão aplicadas sobre cerca de US$ 20 bilhões das exportações canadenses para o país, representando cerca de 5% do volume de comércio entre os dois países. O argumento americano é de que o Canadá usufruiu de vantagens de acesso ao mercado americano que não são recíprocas, afetando negativamente a produção nacional de diversos bens. Contudo, as tarifas impostas pelo governo americano também têm sido acompanhadas por tentativas de avançar outros interesses políticos e sujeitar os parceiros de Washington a termos de comércio que sejam mais favoráveis aos EUA.


O Canadá é o segundo maior parceiro econômico dos Estados Unidos e cerca de 70% das suas exportações são direcionadas ao mercado americano. Em 2025, o comércio de bens e serviços dos EUA totalizou US$ 879,9 bilhões. Os EUA exportaram US$ 426 bilhões, enquanto os EUA importaram US$ 454 bilhões em produtos canadenses, gerando um superávit para o Canadá. Apesar das tarifas, houve um aumento na comparação ano a ano no volume das exportações para o Canadá e de importações canadenses.


Essa não é a primeira vez que a relação comercial entre os dois países é tensionada pela tentativa de revisão dos termos de troca impostos pelos Estados Unidos. No seu primeiro mandato como presidente, Trump renegociou o NAFTA (North-America Free Trade Agreement), acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá. Após a renegociação, o acordo passou a se chamar USMCA (United States, Mexico and Canada Trade Agreement).

Leia Também:

Na nova versão, os Estados Unidos buscaram assegurar melhores termos de comércio para o país em detrimento de seus parceiros. Acordos de livre comércio são construídos sob a perspectiva de tratamento preferencial para os bens dos parceiros envolvidos, facilitando os fluxos de comércio entre esses países ao buscar a eliminação progressiva de barreiras tarifárias e não-tarifárias entre os membros dos acordos.


Já em seu segundo mandato, em fevereiro de 2025, Trump anunciou a aplicação de tarifas de 35% sobre importações oriundas do Canadá sob a justificativa de que o país facilita o tráfico de drogas pela fronteira norte dos Estados Unidos com o país. Além disso, foram impostas tarifas sobre importantes setores da economia canadense como alumínio, ferro e automóveis. O principal alvo agora é a indústria de laticínios canadense e outros bens agrícolas. Trump impôs as tarifas com base na Seção 338 do Smoot-Hawley Tariff Act que permite ao poder executivo impor tarifas sobre bens agropecuários por tempo indeterminado para proteger a produção doméstica.


O Canadá já tem retaliado os EUA impondo tarifas sobre bens americanos e há um boicote promovido por alguns governos de províncias canadenses a bens alcoólicos oriundos dos EUA. O governo canadense afirmou que não se sujeitará aos termos de Washington e retaliará impondo tarifas na mesma proporção sobre bens americanos a partir de setembro. As tarifas devem variar entre 15% e 50% sobre produtos como alumínio, móveis, frutos do mar e laticínios, por exemplo. Segundo o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, Washington ofereceu muito pouco e fez demandas excessivas para o Canadá, o que inviabilizou o alcance do acordo. Além disso, os Estados Unidos têm demandado acesso preferencial à exploração de minerais críticos no país, o que foi rejeitado pelo governo canadense. Os minerais críticos e as Terras Raras são recursos estratégicos utilizados na indústria de defesa e tecnologia. Hoje, a China é responsável pelo processamento de cerca de 90% dos minerais críticos e terras raras, o que dá a Pequim um importante instrumento de barganha com os Estados Unidos diante da acirrada competição entre os dois países pela preponderância global.


Os Estados Unidos acusam o governo canadense de não atender aos termos do acordo proposto. Contudo, a dinâmica de negociação de acordos com os Estados Unidos tem seguido a imposição de termos específicos determinados por Washington que giram em torno de aumento de investimentos nos Estados Unidos, obrigação de realização de compras de bens americanos e assegurar acesso a recursos estratégicos sem muita margem para negociação desses termos pelos países parceiros. A tendência dos acordos celebrados com outros países mostra que os EUA têm buscado acordos marcados por ganhos assimétricos que favorecem o país de forma desproporcional em relação aos seus parceiros em questão. Além disso, as tarifas impostas ao Canadá pretendem favorecer produtores agropecuários americanos, o que pode contribuir para melhorar a aprovação do Presidente à medida que eleições de meio de mandato se aproximam.


A imposição dessas tarifas marca o aumento das tensões dos EUA com o Canadá, que é um importante parceiro comercial dos Estados Unidos e um aliado militar na OTAN. A imposição de tarifas segue a lógica do governo Trump de aplicar tarifas exorbitantes sobre parceiros comerciais com o objetivo de conseguir concessões econômicas e políticas para a realização dos interesses dos Estados Unidos, sobretudo para a manutenção da sua primazia global. A expectativa é que essas novas tarifas sobre o Canadá não tenham um efeito significativo sobre a inflação nos EUA, uma vez que recaem sobre um percentual pequeno das exportações canadenses para os EUA. Contudo, o não alcance de um acordo sinaliza o aumento da falta de convergência de interesses entre os dois vizinhos que possuem uma longa história de parceria econômica e militar. Paralelamente, o Canadá tem buscado diversificar seus parceiros comerciais a fim de reduzir sua dependência do mercado norte americano e aumentar a resiliência da sua economia diante das investidas tarifárias dos Estados Unidos. Dentre os esforços de diversificação de parceiros canadenses, pode-se destacar a retomada desde 2025 das negociações do acordo Canadá-Mercosul.

Comentários:
Isabel Rizzo

Publicado por:

Isabel Rizzo

Saiba Mais

Veja também

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )

(Responsabilidade pelo conteúdo) As ideias e opiniões expressas em cada matéria publicada são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do editor. Cada jornalista é responsável juridicamente por suas matérias assinadas. O Editor se responsabiliza apenas pelas matérias assinadas por ele. - AGITA BRASIL.