A queda da temperatura e da umidade do ar costuma aumentar a preocupação com a pele ressecada no inverno. Mas os efeitos da estação não se limitam ao corpo: cabelos podem ficar mais ásperos e quebradiços, enquanto os lábios tendem a apresentar descamação, ardência e fissuras. Para a dermatologista Dra. Paula Sian, a hidratação no frio deve ser pensada de forma mais ampla, respeitando as particularidades de cada região.
“No inverno, muita gente lembra de passar hidratante no corpo, mas esquece que os cabelos e os lábios também sofrem com a perda de água e com as agressões do dia a dia. A hidratação precisa ser adequada para cada área: o produto que protege a pele não necessariamente resolve o ressecamento do fio ou a sensibilidade dos lábios”, explica a médica.
Na pele, substâncias como glicerina, pantenol, dexpantenol e aloe vera estão entre os ativos frequentemente presentes em hidratantes corporais. Segundo Paula, a textura do produto também influencia no cuidado: loções mais fluídas costumam ter maior teor de água, enquanto cremes mais densos oferecem proteção mais intensa contra a perda de hidratação, sendo especialmente úteis para peles secas ou sensibilizadas.
A dermatologista ressalta que o momento da aplicação faz diferença. O ideal é utilizar o hidratante logo após o banho, com a pele ainda úmida, para favorecer a retenção de água. Já os óleos corporais, embora possam melhorar a sensação de maciez, não devem ser considerados substitutos do hidratante. “O óleo forma uma película mais superficial e pode ajudar a reduzir a perda de água, mas não hidrata da mesma forma que um creme adequado. A pele pode parecer macia por fora e continuar ressecada. Por isso, principalmente no inverno, a prioridade deve ser o hidratante”, afirma.
A médica também chama atenção para hábitos que podem comprometer a proteção natural da pele, como banhos muito quentes e demorados, uso de bucha, esfoliação excessiva e sabonete em grande quantidade. Para ela, o cuidado mais eficiente continua sendo simples: água morna, banho rápido, sabonete usado com moderação e hidratação após a higiene. “Existe uma tendência de transformar o banho em um ritual com muitas etapas e produtos, mas, do ponto de vista dermatológico, o excesso pode prejudicar a barreira da pele. Não adianta agredir durante o banho e tentar compensar tudo depois com hidratante”, orienta.
Cabelos: hidratação deve ser direcionada aos fios
No inverno, o uso mais frequente de secador e de água quente pode aumentar o ressecamento dos cabelos, especialmente em fios que já passaram por coloração, luzes, progressiva, alisamentos ou outros procedimentos químicos. A dermatologista explica que é importante diferenciar o couro cabeludo dos fios. Enquanto o couro cabeludo é uma estrutura viva e pode apresentar oleosidade, caspa ou dermatite, o comprimento do cabelo é formado por fios que não conseguem se regenerar sozinhos depois de danificados.
“Uma pessoa pode ter couro cabeludo oleoso e pontas extremamente secas ao mesmo tempo. Nesses casos, é necessário cuidar de cada região de forma diferente: o shampoo voltado ao controle da oleosidade deve ser usado na raiz, enquanto condicionadores, máscaras, cremes para pentear e óleos reparadores devem ser aplicados no comprimento e nas pontas”, esclarece.
Entre os ativos comuns em produtos capilares hidratantes e reparadores estão pantenol, aloe vera, glicerina, ceramidas, ácido hialurônico e óleos vegetais, como os de semente de abacate, uva e girassol. Esses componentes ajudam a preservar a água dentro do fio, melhorar a maciez, reduzir o ressecamento e diminuir a quebra.
Para cabelos muito danificados por química ou calor, produtos com ação reparadora e seladora, inclusive com queratina, podem fazer parte da rotina. Porém, Paula alerta que o tratamento perde efeito quando o fio continua sendo submetido constantemente a temperaturas muito elevadas. “Não adianta tentar reparar o cabelo e continuar agredindo o fio com secador muito quente, chapinha excessiva ou escovas rotativas em alta temperatura. O calor em excesso também traumatiza e resseca a fibra capilar”, destaca.
A atenção deve ser ainda maior nos cabelos brancos ou grisalhos, que tendem a ser naturalmente mais secos. Além disso, shampoos desamareladores podem intensificar a sensação de ressecamento. Por isso, a orientação é associar esses produtos a uma rotina de hidratação e optar por fórmulas específicas para cabelos grisalhos, capazes de proteger os fios sem comprometer a tonalidade.
Lábios exigem proteção antes de surgirem fissuras
Os lábios também ficam mais vulneráveis no inverno. Por serem uma região delicada e menos resistente às agressões externas, podem apresentar ressecamento, descamação, sensibilidade e rachaduras com maior facilidade.
“Os lábios precisam de cuidado logo nos primeiros sinais de ressecamento. Muitas pessoas arrancam as pelinhas soltas, mas isso pode provocar ferimentos, inflamação e prolongar o desconforto. O melhor é iniciar a hidratação antes que apareçam fissuras”, ressalta a dermatologista.
Entre os ativos indicados para hidratação labial estão pantenol, ceramidas, vitamina E, glicerina, manteiga de cacau e ceras naturais. A vaselina sólida também pode ser uma opção acessível para proteger a região, reduzir a perda de água e aliviar a sensação de irritação. Além do frio, alguns produtos usados no cotidiano podem intensificar o desconforto nos lábios. Paula cita pastas de dente branqueadoras, fórmulas à base de carvão ativado, produtos muito adstringentes e enxaguantes bucais com álcool. Substâncias ácidas, como limão e vinagre, também podem aumentar a ardência quando a região já está sensibilizada.
Cuidado de inverno não precisa ser complicado
A principal orientação para atravessar os meses frios com mais conforto é adotar uma rotina constante e adequada às necessidades individuais, sem acreditar que uma quantidade excessiva de produtos garantirá melhores resultados. “Hidratar é criar uma rotina de proteção, escolher ativos adequados e reduzir agressões desnecessárias. Pele, cabelos e lábios respondem melhor quando o cuidado é simples, regular e compatível com a necessidade de cada pessoa”, conclui Paula.
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