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Segunda-feira, 20 de Abril de 2026

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O conflito Irã-EUA: entre subjugação indesejada e resistência irresponsável

Leo Braga, docente do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio (FPM Rio)

O conflito Irã-EUA: entre subjugação indesejada e resistência irresponsável
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O desafio nosso, internacionalistas, é acompanhar em tempo real ou quase real os eventos que nos cercam. Parte da atividade é fazê-lo cotidianamente até que alguns desses ganhem maior relevância. Aí, podemos entender os porquês e, inclusive, sugerir cenários - menos sobre o que gostaríamos que acontecesse, mais sobre as possibilidades do que pode acontecer.
 

A observação sobre os mecanismos funcionais das relações internacionais e a motivação dos Estados é sempre necessária porque amplia nossa capacidade analítica sobre os fenômenos que nos cercam. Mas não apenas isso. É sempre necessário pensarmos sobre as implicações das ações, uma vez decididas. Há implicações. Sempre. E nós não controlamos isso.
 

Pensemos sobre o conflito Irã-EUA, hoje, e as implicações das decisões dos atores envolvidos. Não pensemos apenas sobre as causas americanas. Algumas serão ditas como legítimas, como a preocupação com o regime nuclear iraniano. Outras, poderão ser colocadas à prova mais facilmente. O fato é que o conflito e o ataque dos EUA ao Irã aconteceram. A ação americana contribui para pensar sobre como podemos aprimorar, por exemplo, o direito internacional ou os mecanismos de decisão na política internacional.
 

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É pouco provável, se formos analisar a regionalização do conflito, que o Hezbollah tenha condições de manter ataques a Israel por muito tempo. Ao contrário, Israel tem capacidade militar superior para manter conflito armado com o Hezbollah e isso, aliás, pode ser muito oportuno ao governo de Netanyahu. 
 

Quais são as implicações para o Hezbollah? E para o Líbano? Virar uma “segunda Faixa de Gaza”? É pouco provável que haja participação massiva dos houthis em favor do Irã e ainda mais por longo tempo, dado que se trata apenas de um grupo armado. Quais são as implicações para os houthis e para o Iêmen? E para o comércio internacional e a produção que circula pelo Estreito de Ormuz? Iraque está meio dividido entre apoiar Irã e não se meter em novo conflito com os EUA. É menos provável que avance com a opção de participação direta na guerra. 
 

Se pensarmos na China e na Rússia, menos ainda direta talvez seja a ingerência na questão. Rússia tem sua própria guerra e não parece que entrar em conflito em nome do Irã contra forças norte-americanas seja alternativa viável. Que faire? Vejamos as implicações de desdobramento do esforço logístico em uma segunda frente de batalha, recursos financeiros e envolvimento em uma crise que não é sua. 
 

Por outro lado, se a China não apoiou com tropas a Rússia contra a Ucrânia, é pouco provável que o faça com o Irã. Obviamente, há outros mecanismos de apoio logístico e cooperação técnico-militar e mesmos estes encontram limitações em médio prazo, pelo menos. Como evitar, depois, o escalonamento do conflito e o envolvimento direto? O que poderia entrar na mesa de negociação que fosse caro demais para a China? Em que interessa a China que o Estrito de Ormuz fique fechado se por lá saem aproximadamente 15% do petróleo que o país importa? Vejamos.
 

Ao Irã resta defender-se contra-atacando. É legítimo, inclusive pela Carta da ONU, de acordo com o art. 51. Ainda assim, há ressalvas, já que, de qualquer forma, há desdobramentos. Se levarmos em conta os ensinamentos sobre guerras e suas teorias, do ponto de vista mais normativo e histórico, podemos considerar o conflito atual de modo menos apaixonado – em que pesem as implicações de assim se fazer! Isso se aplica a outros conflitos que presenciamos hoje. No limite entre subjugação indesejada e resistência irresponsável, há de se compreender um espectro de condições. E esse é exatamente o ponto que quero trazer.
 

À subjugação indesejada corresponde ao apelo ao direito internacional, ao entendimento e defesa de uma ordem internacional em que consenso, legitimidade e (frágil) legalidade andam juntos. Nenhum Estado deseja ser subjugado. Isso está lá no marco (mito?) fundacional de Relações Internacionais, em Westphalia (1648).
 

E se o direito internacional for insuficiente para evitar a subjugação indesejada restará a resistência. Contudo, a resistência, ainda que legítima, deve ser responsável. Quero dizer que ela deve ser do tipo que produz resultado melhor do que a resistência irresponsável. Em um mundo em que o direito (internacional) depende, em última instância, da distribuição do poder mundial, pode mesmo caber àquele que detém maior fatia de poder a condição final de decidir os rumos das conversas e das relações entre os Estados. Isso não é bom ou ruim. Apenas é.
 

A resistência irresponsável parece ser aquela que coloca em risco a sobrevivência de um grupo que, ceteris paribus, não reúne condições de superar seu inimigo e que, mesmo assim, lança-se em uma guerra de causa legítima (como a legítima defesa do famoso art. 51 da Carta da ONU), mas fora da observação das chamadas chances reais de sucesso. É preciso outra posição. É preciso ponderar ao máximo as chances de sucesso e não as encontrando deve-se considerar o menor dano possível àqueles que estejam sob seus cuidados - a população nacional. Cabe ao Estado proteger seus nacionais. Sempre.
 

Nesse ambiente anárquico internacional, marcado, portanto, por ausência de autoridade central que esteja acima dos Estados Nacionais, pode valer a lei do mais forte ou aquilo que a sociedade internacional formar por consenso sendo, assim, legítimo. À condição legítima do Irã se defender deve corresponder uma resistência responsável e, como tal, que encontre recursos materiais e, especialmente, políticos para tratar de suas relações internacionais dentro do razoável, dentro da sua responsabilidade para com seus nacionais.
 

Nada disso invalida a causa justa de legítima defesa em qualquer conflito internacional, como nesse em que está envolvido o Irã – ou a Ucrânia. Mas coloca sobre os ombros do Irã a responsabilidade de preservar a vida de seus nacionais, ao máximo. A pior derrota de todo e qualquer governo é o extermínio de sua população. Inevitavelmente, é isso que a guerra faz. Se para os EUA os riscos aos seus nacionais são infinitamente menores, aos iranianos, não. 
 

Parece que, ao Irã, lamentavelmente, deixou-se escapar a oportunidade de buscar algum ponto mais razoável entre a subjugação indesejada e a resistência irresponsável. Vejamos as implicações. Não importam nossas vontades. Importa pensar nas implicações àqueles a quem devemos proteger. E isso não se faz a qualquer custo. Dada a realidade das coisas como elas são, e não como gostaríamos que fossem, deveríamos ter pensado uma resistência responsável.

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Isabel Rizzo

Publicado por:

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