Uma comitiva liderada pelo Ministério da Fazenda brasileiro esteve na China entre os dias 24 e 26 de junho com o objetivo de fortalecer a cooperação macroeconômica entre os dois países. O principal objetivo do Ministério com a visita foi entregar às autoridades chinesas a Carta de Apresentação do governo brasileiro, a fim de dar início ao processo de emissão de títulos da dívida pública brasileira em renminbi, a moeda chinesa, no mercado financeiro chinês. O governo busca aumentar a participação do país na economia internacional e diversificar as fontes de financiamento da dívida pública nacional.
A visita também teve como objetivo fortalecer iniciativas de financiamento climático, como o Programa Eco Invest Brasil, a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) e o desenvolvimento do mercado regulado de carbono. Para tanto, foram realizadas reuniões com o NDB, o banco de desenvolvimento dos BRICS, e com o AIIB (Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura). O país busca atrair investimentos produtivos, fortalecer a descarbonização da economia brasileira e ampliar sua inserção em cadeias globais de valor.
A China é um importante parceiro econômico do Brasil. Desde 2009, o país é o principal parceiro comercial brasileiro. Entre os principais produtos exportados pelo Brasil para a China destacam-se soja, petróleo e minério de ferro, enquanto o Brasil importa, principalmente, bens manufaturados chineses. Em 2025, o Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo, o que representou um aumento de 45% em comparação com o ano anterior. Contudo, os Estados Unidos ainda são a principal fonte de Investimento Externo Direto (IED) para o Brasil.
A China tem se consolidado como um importante parceiro econômico do Brasil em meio a um cenário de competição geopolítica com os Estados Unidos pela preponderância econômica global. A influência chinesa na América Latina tem crescido em detrimento da influência americana, principalmente pelo fortalecimento de parcerias econômicas com os países da região, incluindo acordos bilaterais de investimento e a posição da China como importante destino das exportações de produtos primários latino-americanos. Esse movimento tem levado os Estados Unidos a adotar uma postura voltada ao restabelecimento da preeminência de sua influência na região. Em novembro de 2025, o governo Trump deixou claro, em sua Estratégia de Segurança Nacional, que a América Latina é vista como estratégica e fundamental para a segurança nacional dos Estados Unidos.
O esforço americano de reafirmar sua influência na região tem sido marcado pela imposição de tarifas comerciais elevadas aos países latino-americanos, sob o argumento de práticas comerciais desleais que prejudicariam as exportações americanas. Países como Guiana, Guiana Equatorial, Nicarágua e Venezuela receberam tarifas recíprocas superiores aos 10% impostos aos demais países, anunciadas em abril de 2025. Apesar de inicialmente ter recebido apenas a tarifa geral de 10%, o Brasil passou a enfrentar tarifas adicionais de 40%, sob justificativas diversas envolvendo a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, a regulação das mídias sociais e a alegada ameaça que o Pix representa aos serviços financeiros americanos. Apesar da elaboração de uma extensa lista de exclusões de produtos brasileiros afetados pelas tarifas e da posterior suspensão, pela Suprema Corte dos Estados Unidos, das tarifas recíprocas, em junho deste ano foram anunciadas tarifas de 25%, após investigação comercial conduzida com base na Seção 301, que deverão entrar em vigor em 15 de julho de 2026.
Os Estados Unidos têm aplicado tarifas comerciais elevadas a diversos parceiros com o objetivo de forçá-los a negociar acordos que privilegiem os interesses americanos e reduzam o nível tarifário, embora essas medidas não eliminem as barreiras comerciais impostas ao comércio internacional. Para países que têm os Estados Unidos como um de seus principais parceiros comerciais, essas tarifas podem gerar impactos econômicos significativos. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, mas, desde 2025, as exportações brasileiras para o país vêm diminuindo. Em contrapartida, as exportações para a China continuam crescendo e, em 2026, já registraram aumento de 21% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
O fortalecimento da parceria entre China e Brasil não ocorre apenas no comércio e nos investimentos, mas também na crescente presença da moeda chinesa nos ativos de reserva do país e nas transações financeiras. Desde 2023, o renminbi tornou-se a segunda principal moeda presente nas reservas internacionais do Banco Central, superando o euro, embora ainda esteja bastante aquém do dólar. Entre 2024 e 2025, o volume de importações brasileiras provenientes da China pagas em moeda chinesa aumentou de US$ 1,80 bilhão para US$ 3,81 bilhões, embora isso ainda represente apenas 1,36% das importações brasileiras. Além disso, o país já conta com instituições financeiras habilitadas a realizar transações em renminbi, como o BOCOM BBM e a filial brasileira do Banco Comercial da China. O BOCOM BBM foi a primeira instituição ligada diretamente ao CIPS, sistema de pagamentos chinês alternativo ao SWIFT, e também a primeira a concluir uma operação de crédito em renminbi com uma empresa brasileira. Neste ano, a XTransfer, plataforma chinesa de pagamentos entre empresas voltada ao comércio exterior, instalou-se no Brasil com o objetivo de facilitar a participação de pequenas e médias empresas no comércio internacional, contribuindo também para ampliar o uso da moeda chinesa nessas transações.
No contexto em que os Estados Unidos se apresentam como um parceiro econômico menos confiável, a diversificação de parceiros torna-se fundamental para fortalecer a resiliência e garantir a continuidade do crescimento econômico nacional. A China tem se consolidado como um importante parceiro em termos de comércio e investimentos, demonstrando disposição para expandir a cooperação econômica com o Brasil, considerado estratégico na região. As iniciativas promovidas durante a viagem da comitiva do Ministério da Fazenda visam fortalecer as relações entre os dois países. Contudo, uma aproximação cada vez maior com a China certamente continuará a gerar incômodo nos Estados Unidos, que tendem a buscar mecanismos para reafirmar sua preponderância em sua área de influência.
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