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Terça-feira, 02 de Junho de 2026

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Os destaques da abertura 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU

Fernanda Brandão, Doutora em Relações Internacionais, Professora e Coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

Os destaques da abertura 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU
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No dia 23 de setembro, foi aberta a 80ª reunião da Assembleia Geral da ONU (AGONU). Os debates gerais na assembleia são abertos anualmente no mês de setembro e perduram até o ano seguinte. Na semana de abertura dos debates, os chefes de Estado costumam representar seus países nos discursos criando uma oportunidade de encontro entre os chefes de Estado dos países membros. Não à toa, nesta semana importantes reuniões bilaterais e multilaterais costumam acontecer às margens das reuniões da AGONU. Em tempos de conflito e crises internacionais, essas reuniões se tornam importantes marcos na tentativa de promover cooperação em torno dos principais desafios da política internacional. Além disso, essa reunião é simbólica por comemorar os 80 anos de existência da AGONU como espaço de debate entre os países membros.

No primeiro dia, discursam tradicionalmente o Secretário Geral da ONU, o Brasil seguindo a tradição diplomática inaugurada em 1949, seguidos dos Estados Unidos, o país anfitrião, uma vez que a sede da ONU está em Nova York, seguidos pelos demais membros. O discurso do presidente brasileiro foi marcado pela reafirmação da soberania nacional frente a tentativas de intervenção externa em processo domésticos, reafirmou o compromisso do Brasil com o multilateralismo e com a ONU como espaço de negociação, e apresentou a importância da COP-30 e das questões climáticas mesmo diante de um cenário global marcado por conflitos, competição e crises de segurança. O presidente brasileiro também condenou a manutenção dos reféns israelenses pelo Hamas, mas condenou a continuidade do genocídio perpetrado pelo exército israelense em Gaza. O discurso de Lula seguiu a tradição dos discursos brasileiros de abertura da AGONU, trazendo uma análise sobre os principais dilemas contemporâneos da política internacional a partir da perspectiva brasileira.

Logo após o discurso do presidente brasileiro, o presidente norte-americano Donald Trump discursou. Em sua palavra, Trump reforçou a descrença e desconfiança que o país hoje tem em relação às organizações internacionais, especialmente a ONU, afirmando que são “ineficientes e incapazes” de lidar com questões contemporâneas que os Estados Unidos têm resolvido de forma unilateral. O discurso de Trump repetiu as prioridades do seu projeto de governo de “fazer os EUA grande de novo (make America great again)”, ressaltando a importância de conter os fluxos migratórios que têm “destruído” a civilização ocidental e representam “uma ameaça de segurança para os EUA”. O presidente norte-americano também reforçou seu ceticismo quanto às mudanças climáticas, chamando a questão de um dos maiores “golpes” da história e reafirmou seu compromisso em ampliar a exploração de petróleo e de combustíveis fósseis. Em suma, o discurso de Trump seguia a tendência do crescente unilateralismo e isolacionismo na política externa americana e sua não disposição em cooperar com outros países, a menos que seja sob a liderança norte-
americana e para atender interesses americanos específicos.

Os discursos dos dois presidentes que iniciaram os debates foram marcados por posições diametralmente opostas sobre importantes questões da política internacional. Apesar da amistosidade expressada por Trump em relação ao presidente brasileiro e em relação à possibilidade de um encontro entre os dois na próxima semana, os discursos revelam posições e interesses que não convergem e visões de mundo diferentes que
podem complicar a possibilidade de cooperação entre os dois países. No mais, essas posições também revelam a dificuldade de construção de consenso hoje na política internacional quando há diferentes interesses e prioridades que nem sempre convergem e muitas vezes competem entre si. O resultado tem sido um crescente unilateralismo e o uso mais frequente da força, que ferem diretamente os princípios da carta da ONU de promoção da cooperação, da paz e do desenvolvimento econômico.

O presidente francês Emmanuel Macron, que também discursou no primeiro dia de sessão, reforçou a importância de cooperação entre os países desenvolvidos do G7 e os demais países do sul global para combater as principais ameaças contemporâneas da política internacional. O presidente ressaltou que na primeira reunião em São Francisco em 1945 havia apenas 51 membros e hoje a AGONU tem 193 membros, mostrando a ampliação da representatividade da organização ao longo de sua história. Macron conclamou os países membros da ONU para cooperarem em torno dos dilemas globais contemporâneos pois respostas fragmentadas e não coordenadas têm apenas alimentado e agravado problemas como as crises de segurança no Oriente Médio e na Ucrânia, problemas de sociais e econômicos e aumentando a fragmentação entre o sul e o norte global.

Os discursos dos chefes de Estado continuam nesta semana. Contudo, é possível perceber que, aos 80 anos, a ONU enfrenta importantes dilemas na promoção dos seus objetivos principais, a paz e a cooperação internacional. Isso tem se refletido na denúncia da falta de efetividade da organização, mas também em demandas por reformas que tornem a organização mais representativa e efetiva para lidar com os dilemas contemporâneos.


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Isabel Rizzo

Publicado por:

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