A vida em Cuba não está nada fácil. O exercício de sufocamento a que está submetido o regime cubano e, pior ainda, o povo cubano, ganhou em 20 de maio mais um impulso. Marco Rubio, o Secretário de Estado dos EUA (cargo equivalente ao de Ministro de Relações Exteriores, no Brasil), fez um discurso em espanhol, um recado direto aos moradores da ilha. Sua fala tratou da aposta numa “nova Cuba”, em que a soberania residiria (ou residirá) no próprio povo cubano e não na oligarquia militar do país. Para incentivar, a proposta de enviar aos cubanos USD 100 milhões. É quase, ou é mesmo, uma fala de coragem e de esperança. Mas, cabe reflexão. Sempre.
A fala de Rubio foi em tom sereno, manifestando importar-se com o povo cubano. Falar em espanhol, imputar a situação de penúria em que se encontra Cuba e exortar o povo cubano a tomar as rédeas de sua vida civil e política é mais do que discurso normativo e voltado a um mundo de liberdade, de escolha e de autodeterminação. É tudo isso, sem dúvida. Mas, é também a parte razoável da gestão Trump nessas constantes demonstrações de morde e assopra. O difícil é saber a ordem dos movimentos: por último, Trump vai morder ou assoprar?
Se é fácil compreender que o governo norte-americano morde e que assopra, difícil é saber o que se fará no final. No caso da Groenlândia, após ameaças de tomar o território ou de comprá-lo, Trump assoprou – dada a resistência dos europeus. No caso da Venezuela, quando fez a extração do presidente Maduro, mordeu. Com o Irã e a situação no Estreito de Ormuz, o movimento é mais complexo, porém, definitivamente, não mordeu: não mobilizou tropas no terreno em conflito aberto com o Irã. Com a China, na última semana, também foi mais sossegado e otimista: assoprou.
Mas, Cuba é diferente. Como disse uma vez Porfirio Díaz, então presidente e ditador mexicano no final do século XIX, “Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos EUA”. Cuba está muito perto dos EUA. Situada no chamado Triângulo de Mahan ou Triângulo do Caribe, Cuba constituiu ameaça existencial aos EUA por aproximadamente 40 anos, quando o mundo estava ainda na guerra fria, e americanos e soviéticos disputavam o poder mundial. Essa é a primeira consideração: os EUA estão mais propensos a morder que assoprar.
No já avançado fim da guerra fria, três décadas atrás, ocorreram duas coisas, talvez uma em função da outra. Um desinteresse dos EUA pela América Latina e Caribe, talvez em função do “desencantamento do mundo” e de uma política americana de smart power (estar presente onde importa e não em todo o mundo) nas primeiras duas décadas dos anos 2000. Isso, curiosamente ou não, foi acompanhado pelo movimento de onda rosa e seus governos progressistas na região, que favoreceu narrativas e posicionamentos políticos contra-hegemônicos. Essa é a segunda consideração: a famosa “negligência salutar” dos EUA em relação à América Latina e Caribe.
Por sua vez, a aproximação da China com a região incentivou que a posição política, de afastamento também da região em relação aos EUA, fosse complementada pela aproximação político-ideológica (comunista) e econômica (liberal) chinesa. Agora, a maior parte dos países da região tem na China o seu maior parceiro comercial naquilo que foi a ampliação da Nova Rota da Seda chinesa, agora, chegando até aqui sob o olhar pouco atento dos EUA. Mas, num mundo de recursos escassos, de pandemia, de cadeias globais de valor de reestruturando em movimento de re-shoring, near-shoring e friend-shoring, o Tio Sam “colocou suas barbas de molho”. Essa é a terceira consideração: com a complicada e sensível logística global, “o império contra-ataca” e os EUA se voltam à América Latina e Caribe.
Ainda, cabe considerar a imagem que nos passa o líder norte-americano: ousado, vaidoso, feroz e audaz; muito corajoso, um tanto inconsequente (será?); no mínimo, polêmico, senão, incompreendido. Cabem muitos adjetivos a Trump. Cabe também o senso de oportunidade a ele e à sua equipe. Talvez seja a hora de haver entendido a distribuição do poder mundial ou sua redistribuição em curso para cuidar da questão cubana - já se cuidou da venezuelana. Neutralizar ou dificultar a presença chinesa na região é objetivo estratégico maior dos EUA. É menos sobre Cuba, mas aquilo que Cuba pode significar de projeção de poder chinês. Essa é a quarta consideração: “China, go home!”. Para os EUA, é necessário afastar a China.
Mas, por que fazer isso mordendo se é possível fazer assoprando? A tentativa fracassou, até agora, no Irã, quando os EUA tentaram encorajar o povo iraniano contra um regime democrático-ditatorial-
Mas, Cuba também importa aos cubanos! E é isso o que Marco Rubio está tentando dizer com tom emocional, quase cativante e, também, pragmático: que ao povo cubano, cabe seu próprio destino. Isso pode aproximar Cuba dos EUA e, ao invés de uma invasão e ocupação americana na ilha cubana, acabar se transformando numa arriscada e desastrosa aventura. Trump não está mordendo Cuba, ainda. E isso é a janela de oportunidade ou para o regime cubano entender o movimento norte-americano e se proteger – mas, como se não dispõe de recursos suficientes? – ou para o povo cubano fazer uma nova revolução e fazer surgir uma nova Cuba.
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