A maior mudança tributária desde o Plano Real passou meses fora do radar das empresas e só recentemente ganhou status de urgência, a ponto de um dos palestrantes descrever o clima como de desespero. O diagnóstico marcou o debate sobre a reforma no TAX Revolution 2026, encontro promovido pelo think tank Mercado & Opinião em parceria com a B2WE nesta quarta-feira (4), em Alphaville Empresarial, Barueri (SP).
O painel “Reforma tributária: o que muda na prática para as empresas?” reuniu o auditor fiscal Jefferson Valentin, a empresária Carol Paiffer, o advogado Hygoor Jorge e Roberto Medeiros, CEO da EPI-USE Brasil. Coube a Hygoor, presidente da Comissão de Holding do Conselho Federal da OAB, dimensionar o que está em jogo. Segundo ele, o novo sistema deve concentrar uma arrecadação de cerca de R$1,5 tri por ano e muda a tributação de todas as relações de consumo do país. “Não é uma reforma pequena. É uma reforma que foi menosprezada durante muito tempo e, depois que passou a eleição, parece que o pessoal acordou”. Na leitura dele, a pressa faz o básico tomar o lugar da estratégia. “Trabalhar o planejamento com base nessas alterações econômicas previstas é o mínimo a se fazer agora”, disse.
Auditor da Receita Estadual de São Paulo e um dos principais formuladores das regras da reforma para o setor imobiliário, Valentin puxou a discussão para esse terreno, que considera o mais penalizado pelo modelo atual. “A construção civil é a caricatura de todos os incentivos econômicos ruins que a gente tem hoje”, disse. O peso maior para a construtora, explicou, não vem do tributo recolhido na venda do imóvel e sim do imposto embutido nos insumos durante um ciclo de obra que se estende por anos sem gerar crédito.
Pelas novas regras, o setor ganha tratamento próprio. A alíquota cai 50% na venda de imóveis e 70% na locação, o que, na avaliação do auditor, transforma a compra de imóveis para alugar em um excelente investimento. Pessoas jurídicas serão sempre contribuintes, enquanto pessoas físicas só entram no sistema quando ultrapassarem limites objetivos de vendas e aluguéis. Abaixo desses patamares, a adesão é opcional, possibilidade que, para ele, muitos fundos de investimento descartaram sem fazer as contas. Já a locação de curta temporada, como a intermediada por aplicativos, passa a seguir as regras da hotelaria.
O relógio é curto. Desde janeiro, CBS e IBS aparecem nas notas fiscais apenas com alíquotas simbólicas, mas em 1º de janeiro de 2027 a CBS assume de vez o lugar do PIS e da Cofins. ICMS e ISS só deixam de existir em 2033, o que obriga as empresas a operar com dois modelos em paralelo, ajustar sistemas e rever a lógica de créditos que pesa no caixa.
“Ninguém saiu daqui hoje com a sensação de que tem tempo. Faltam menos de dois meses para a CBS valer de verdade e muito empresário percebeu nesta sala que o preço que pratica hoje pode não fechar em janeiro. Melhor descobrir isso agora do que na primeira apuração”, afirmou Marcos Koenigkan, presidente do Mercado & Opinião e idealizador do evento.
No mercado de fusões e aquisições, a reforma já entrou na conta. Carol, fundadora da Atom, disse que o tema virou ponto de atenção obrigatório no cálculo de valuation e descreveu um cenário de ônus e bônus. Para quem vende, o cenário se complica: a margem atual pode não se sustentar, a capacidade de escalar entra em dúvida e ninguém sabe ao certo quanto do novo custo a economia vai absorver. “Tem muito ‘será’, né? E isso gera instabilidade na tomada de decisão e a negociação fica pior”.
Para o comprador, a mesma incerteza abre espaço para barganhar. A empresária aproveitou para criticar o período recente em que empresas sem resultado eram avaliadas em R$100 milhões com pouco mais que uma apresentação. “Já se promete um negócio que não entrega nada, não tem margem, mas que já vale milhões”.
Paulo Motta, vice-presidente do Mercado & Opinião e sócio-fundador da IMVester, acredita que o efeito sobre essas transações vai aparecer rápido. “Quem está vendendo uma empresa precisa colocar a reforma na mesa já na primeira reunião. Margem que não resiste à CBS não sustenta múltiplo e o comprador vai fazer essa conta de qualquer jeito”.
Medeiros, que comanda a EPI-USE Brasil, consultoria de implementação SAP que integra o grupo global groupelephant.com, destoou do tom de alerta. Provocado pelo mediador sobre o risco de estar entre os mais preocupados do palco, respondeu que está feliz. “Tem oportunidade”, afirmou.
Ele propôs olhar a reforma por três ângulos. O primeiro é o do executivo, que precisa garantir a conformidade da própria operação, do time e das contratações. O segundo é o da formação de preços, a ser refeita do zero. “Muda totalmente o pricing, a forma que você vendia, as margens, onde você recolhe imposto. Muda tudo”.
O terceiro é o do próprio negócio. A EPI-USE implanta sistemas de gestão (ERP), onde ficam as regras de cálculo de tributos, a emissão de notas e a apuração de créditos, justamente a frente que a transição deve tornar mais demandada daqui em diante. “É uma baita oportunidade”.
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