Em 29 de janeiro de 2026, o presidente Donald Trump assinou a Ordem Executiva 14380 sobre “Ameaças Dirigidas aos EUA pelo Governo de Cuba”. Tal documento indica duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, dá ao Secretário de Estado e ao Secretário do Tesouro dos EUA poder total na identificação de entidades (pessoas, empresas e quaisquer outras organizações) cujos bens e interesses ameacem os EUA. Em segundo, autoriza o Governo dos EUA a bloquear movimentação financeira e física de ativos, inclusive pessoas cujas políticas, práticas e ações, direta ou indiretamente, ameacem os EUA. Isso vale para entidades cubanas (em Cuba), quaisquer outras em qualquer parte do mundo e, inclusive, para pessoas nos EUA, mesmo cidadãos americanos. Isso envolve também, para certo espanto, movimentação de doações (de dinheiro, de roupas e de alimentos, por exemplo) que, para o Governo americano, poderiam ser disfarce de ajuda a grupos terroristas.
Isso quer dizer que as sanções americanas anunciadas na sexta-feira passada (1º de maio) foram declaradas no despacho de implementação após passados 90 dias da publicação da Ordem Executiva 14380, dando significado de expiração do prazo de carência. Esse prazo era importante por duas razões. Primeiro, avisar àqueles que eventualmente se encontrassem nessas condições de ameaças aos EUA para que parassem. Foi dado o aviso. Segundo, para que houvesse tempo para o Governo dos EUA levantar os nomes de tais entidades e saber a quem fazer valer tais sanções. Agora, cabe implementar a medida.
Em que pese as duras sanções americanas contra Cuba parecerem a muitos de nós — e eu mantenho-me firmemente nesse grupo — uma postura que desafia a razoabilidade diplomática moderna, há que se fazer um exercício de realismo político. Afinal, é pouco crível supormos que a cúpula da maior potência econômica e militar do globo esteja agindo por mero capricho e/ou correndo risco de um fracasso retumbante que qualquer observador de primeira viagem julgaria prever. Ninguém aposta deliberadamente na própria derrota; há, portanto, que se buscar a lógica por trás do movimento. Vamos chegar lá.
Paralelamente à Ordem Executiva 14380, o Governo Trump decidiu "tirar da gaveta" o Título III da Lei Helms-Burton, de 1996, que permite que cidadãos americanos processem empresas que utilizam propriedades confiscadas pela Revolução de 1959. Isso quer dizer que os EUA não estão apenas apertando o cerco à Cuba; estão, na prática, criando um cenário de insegurança jurídica que visa o estrangulamento financeiro total da ilha. O dado aqui é que a Lei Helms-Burton é uma Lei do Congresso americano e só pode ser derrubada com outra Lei do próprio Congresso. Isso dá margem a tornar impessoal sua utilização. Afinal, não é uma lei de Trump, mas do Congresso americano e de 1996!
Vamos lembrar que foi na década de 1960 que Cuba foi “expulsa” da Organização dos Estados Americanos (OEA) em função de haver “rompido” com a ordem democrática feita a revolução cubana em 1959. A OEA se retratou e convidou Cuba a voltar à organização, em 2009. Cuba recusou-se por entender que a OEA era dominada pelos EUA. Ainda na década de 1960, começou o embargo econômico total dos EUA à Cuba. A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), como forma de pressionar os EUA, faz uma votação anualmente sobre o embargo. As votações não têm caráter vinculante, ou seja, não podem obrigar os países a seguir a vontade da ONU. De qualquer forma, nas últimas votações apenas EUA e Israel votam contra o fim do embargo econômico à Cuba. Isso é um constrangimento político significativo.
A opinião pública mundial tem se manifestado, como temos acompanhado, de modo duro em relação ao Governo Trump e ao modo do presidente americano de “fazer negócios” sempre pressionando, sempre levando ao máximo o nível de tensão com o restante do mundo. Contudo, ainda que eu considere essa postura desmedida, não posso furtar-me a pensar que existe uma "razão de Estado" operando sob a superfície e ainda mais no caso cubano. Mais do que rotular a política de Trump como “Doutrina Donroe”, alguns especialistas já indicam que seu comportamento está mais voltado para a “política do Big Stick” (a política do grande porrete), bem no início do século XX. Aqui, a regra era e é: comportou-se mal, será punido! Isso vai ao encontro do caso venezuelano e, até agora, ao caso iraniano. Chegamos também ao caso cubano.
Contudo, o caso cubano talvez seja o mais sensível em função da menor chance de resposta de Cuba aos EUA. O xadrez atual baseia-se numa leitura fria da solidão cubana no tabuleiro internacional. O que é verdade. Isso faz perceber que a aposta é de que o custo político de asfixiar a economia cubana é baixo face à incapacidade de mobilização dos seus supostos aliados. Em primeiro lugar, a Rússia, ocupada com as suas ambições territoriais na Ucrânia, dificilmente criaria uma desavença estrutural com os EUA por Cuba. Moscou sabe que as suas exigências no Leste Europeu são sua prioridade; Cuba pode ser sacrificada em troca de apoio dos EUA aos interesses russos na guerra com a Ucrânia.
Em segundo lugar, a Venezuela, que apoiava diretamente Cuba, encontra-se numa situação de fragilidade interna e cooptação que a impede de ser o apoio que já foi, desde a “extração” de Maduro e o Governo Delcy Rodriguez alinhado aos EUA. Em terceiro lugar, o Irã, sob o peso do estrangulamento financeiro e concentrando no conflito em sua porta e na própria sobrevivência do regime, não possui fôlego — e talvez nem mesmo interesse real — para uma aliança transatlântica de socorro aos cubanos. Está fora de cogitação. Por fim, a China, que joga o jogo do pragmatismo. Pequim não parece disposta a se envolver diretamente em conflitos regionais nem mundiais. Não o fez com a Rússia e com o Irã. Não o fará com Cuba. Aliás, “deixar” os EUA fazerem o que quiserem em Cuba dá margem para agir em relação à Taiwan. E isso é uma fragilidade dos EUA. A ver.
Assim, Trump joga com alguma liberdade num cenário regional em relação a um país de menor peso estratégico relativo em termos práticos. Mas, quando pensamos em Trump, podemos dizer duas coisas. “Isso é uma aposta, pessoal". Ou seja, uma situação pensada, estratégica e racional de Trump. Faz sentido agir assim em relação à Cuba. As condições e o momento são propícios dados os interesses americanos na região. Outra coisa que podemos dizer é “isso é uma aposta pessoal". Isso quer dizer que pode ser apenas fruto do perfil do líder, com seus devaneios. No primeiro cenário, temos o pragmatismo da estratégia de "estrangulamento comercial"; no segundo, o peso da megalomania na figura de Trump.
A história é pródiga em mostrar-nos que a combinação de visões (supostamente) racionais com traços de personalidade irresponsáveis é perigosa. Quando o ego do líder suplanta a análise fria dos riscos — inclusive o risco de isolar os próprios EUA perante a comunidade internacional (maior ou menor?!) —, a confiança no sucesso costuma ser o prelúdio de um fracasso inevitável.
O que nos resta de alento é o fato de vivermos num mundo que, apesar dos discursos sobre desglobalização, permanece profundamente interconectado. As implicações políticas e econômicas das sanções americanas “à la caça às bruxas" no caso cubano podem arrastar diversos atores para o olho do furacão. Não me parece que o mundo tolerará essa interferência extraterritorial por muito tempo. Mas, até lá, "durma-se com esse barulho".
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