Segundo o Dossiê Mulher 2026, os dados revelam um cenário alarmante: a violência psicológica tornou-se uma das principais formas de agressão sofridas pelas mulheres no estado do Rio de Janeiro. O referido dossiê aponta que o crescimento dos registros demonstra que a violência doméstica nem sempre deixa marcas visíveis e, na maioria das vezes, começa silenciosamente, por meio do controle, da humilhação, da manipulação emocional e da restrição da liberdade da vítima (Silva, 2024).
Esse cenário exige uma mudança de percepção, pois, durante muito tempo, acreditou-se que a violência doméstica começava com um empurrão, um tapa ou uma ameaça. Hoje sabemos que, antes da violência física, quase sempre existe um processo de destruição psicológica da mulher. O agressor procura afastá-la da família e dos amigos, controla suas redes sociais, exige senhas, vigia suas roupas, critica constantemente sua aparência ou capacidade intelectual, diminui suas conquistas e transforma qualquer discordância em motivo para culpabilizá-la. Isoladamente, esses comportamentos podem parecer apenas demonstrações de ciúme ou excesso de cuidado; porém, quando repetidos continuamente, tornam-se instrumentos de dominação.
Esse processo faz com que muitas vítimas passem a duvidar da própria percepção da realidade, sintam-se responsáveis pelos conflitos e desenvolvam dependência emocional em relação ao agressor. Assim, percebe-se que a violência psicológica não é menos grave do que a violência física; frequentemente, ela constitui o caminho que prepara sua ocorrência.
A literatura especializada demonstra que a violência de gênero não decorre de episódios isolados, mas de relações históricas de poder marcadas pela desigualdade entre homens e mulheres. Trata-se de um fenômeno estrutural, sustentado por padrões culturais que naturalizam comportamentos de controle e submissão feminina (Kraisch et al., 2025).
Nos últimos anos, um novo elemento passou a integrar esse cenário: a influência das redes sociais na difusão de discursos misóginos (Morais; Chaveiro, 2024). O próprio Dossiê Mulher dedica, pela primeira vez, atenção ao movimento conhecido como red pill, reconhecendo algo sobre o qual a doutrina já vinha alertando: determinadas narrativas digitais podem contribuir para a normalização da violência contra as mulheres (Morais; Chaveiro, 2024; Silva, 2024).
Embora nem todo consumidor desse tipo de conteúdo venha a praticar violência, estudos apontam que a chamada manosphere produz discursos que apresentam o feminismo como ameaça, retratam as mulheres como manipuladoras e incentivam a recuperação de uma suposta autoridade masculina perdida. A consequência é a legitimação simbólica de práticas de dominação, responsabilizando as próprias mulheres pela violência que sofrem (Bidão, 2023; Kraisch et al., 2025).
Outro aspecto preocupante é a linguagem utilizada por esses grupos. Expressões como "mulher de alto valor", "mulher rodada", "hipergamia" e "homem alfa" parecem apenas categorias de relacionamento, mas frequentemente servem para justificar desigualdades, inferiorizar mulheres e reforçar estereótipos incompatíveis com uma sociedade democrática (Cougo, 2024).
É justamente por isso que reconhecer os pequenos sinais pode salvar vidas. O ciúme excessivo não representa amor; o controle do celular não demonstra cuidado; o isolamento de amigos e familiares não é proteção; e a desqualificação constante da vítima não é uma característica da personalidade do agressor, mas uma estratégia para reduzir sua autoestima e dificultar o rompimento da relação.
Entretanto, o enfrentamento da violência contra a mulher não pode limitar-se a orientar as vítimas sobre como agir, já que a responsabilidade pertence, sobretudo, aos agressores e à sociedade. É indispensável fortalecer a investigação dos crimes, assegurar a efetividade das medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha, responsabilizar criminalmente os autores e combater a disseminação de discursos que naturalizam a misoginia (Santos, 2025).
A produção científica recente é uníssona ao afirmar que avanços legislativos, por si sós, não bastam, pois, sem transformação cultural, educação para a igualdade de gênero e enfrentamento das narrativas que legitimam a violência, continuará existindo um ambiente favorável à repetição dessas práticas (Kraisch et al., 2025; Cougo, 2024).
Combater a violência contra a mulher significa agir antes da tragédia. Isso porque o feminicídio raramente começa no momento da agressão fatal; ele costuma iniciar muito antes, quando o controle passa a ser confundido com amor, a humilhação, com brincadeira, e a possessividade,
com cuidado. Nesse momento, a violência psicológica deixa de ser reconhecida como aquilo que realmente é: uma grave violação da dignidade humana (Brasil, 1988).
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